Jornalista turco Can Dundar condenado a 27 anos de prisão por espionagem

Antigo director do jornal Cumhuriyet está exilado na Alemanha desde 2016. Foi condenado por publicar uma reportagem que denunciava o apoio do Governo turco a grupos jihadistas a combater na Síria.

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Can Dundar foi director do jornal Cumhuriyet EPA/CLEMENS BILAN

O jornalista Can Dundar foi condenado esta quarta-feira a 27 anos de prisão por um tribunal turco pelos crimes de espionagem e apoio a uma organização terrorista, num veredicto que os advogados do jornalista exilado na Alemanha consideram ser politicamente motivado.

Can Dundar foi director do jornal Cumhuriyet, um diário turco considerado como referência para os opositores do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Em 2016, foi condenado, juntamente com Erdem Gul, responsável pela delegação do jornal em Ancara, a cinco anos de prisão por “espionagem” e “divulgação de segredos de Estado”.

Na origem da acusação esteve a publicação pelo Cumhuriyet de um vídeo em que o jornal acusou o Governo turno de fornecer armas a islamistas a combater na guerra da Síria. Os dois jornalistas estiveram presos durante 92 dias e acabaram por ser libertados enquanto aguardavam julgamento.

Can Dundar foi condenado a cinco anos de prisão em Maio de 2016, exilando-se na Alemanha no mês seguinte, tendo recorrido da sentença. Em 2018, o Tribunal Supremo turco anulou o veredicto e as autoridades iniciaram um novo processo, com acusações mais graves.

Esta quarta-feira, o jornalista viu a sua sentença agravada, mas os seus advogados não compareceram em tribunal, pois não queriam “legitimar um veredicto político previamente decidido”, segundo um comunicado citado pela Reuters.

Após a decisão do tribunal de Istambul, Dundar, citado pela AP, responsabilizou o Governo turco pela sua condenação, considerando o veredicto uma “decisão pessoal por parte do Presidente da Turquia” para impedir que jornalistas o critiquem.

As autoridades turcas emitiram um mandado de detenção para Can Dundar , tendo declarado o jornalista como um fugitivo à justiça, o que levou a que os seus bens, incluindo quatro propriedades em Ancara, Istambul e Mugla, fossem apreendidos e as suas contas bancárias na Turquia congeladas.

A Alemanha, no entanto, não parece ter qualquer intenção de extraditar Dundar. Logo após o anúncio da sentença, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, saiu em defesa do jornalista, criticando a decisão da justiça turca.

“O jornalismo não é um crime, mas sim um serviço indispensável à sociedade – principalmente quando visa criticamente quem está no poder”, escreveu Maas no Twitter, denunciando um “duro golpe contra o trabalho jornalístico independente na Turquia”.