Morreu aos 98 anos o virtuoso do violino Ivry Gitlis

Israelita de origem ucraniana, actuou com as maiores filarmónicas mundiais enquanto, ao mesmo tempo, procurava novos desafios e expressões artísticas, colaborando, por exemplo, com Xenakis e com John Lennon e Yoko Ono. Aquele de quem diziam ser “uma das reencarnações possíveis de Paganini” morreu na véspera de Natal em Paris, aos 98 anos.

Nascido em Haifa em 1922, o violinista vivia em Paris desde a década de 1960
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Nascido em Haifa em 1922, o violinista vivia em Paris desde a década de 1960 Tamar Moshinsky
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Ivry Gitlis durante a sua actuação no âmbito do LEFFEST 2015 Cortesia Leffest

Tinha o temperamento dos génios, pela excentricidade, pela curiosidade perante outras expressões criativas, pelo rasgo interpretativo que, tantas vezes, o levava a privilegiar o improviso sobre as notas em pauta. Violinista desde que nasceu, como gostava de se romancear, Ivry Gitlis teve uma carreira longa e preenchida, actuando com as maiores orquestras mundiais, como as Filarmónica de Berlim, Viena, Londres e Nova Iorque, mas também com John Lennon e Yoko Ono ou com o violinista jazz Stephane Grappeli. Interpretava Berg, Bartok ou Tchaikovsky, estreava peças de Xenakis e viu o realizador François Truffaut convocá-lo em 1975 para, enquanto actor, integrar o elenco de A História de Adele H. Ivry Gitlis morreu esta quinta-feira em Paris, a cidade que era a sua desde os anos 1960. A notícia foi avançada pela família do músico à AFP. Tinha 98 anos.  

Nascido a 22 de Agosto de 1922 em Haifa, na Palestina ainda sob domínio britânico, era filho de imigrantes ucranianos saídos de Kamianets-Podilsky no ano anterior. Contava que, ainda pequeno demais para segurar correctamente um violino, já sabia que aquele seria o seu instrumento. Começou a tocar aos cinco anos e, quatro anos depois, o seu talento impressionou Bronislaw Huberman, futuro fundador da Orquestra Filarmónica de Israel. “Ainda que tenha esperado até aos cinco anos para pegar no seu primeiro instrumento, dá a impressão de ter nascido com ele”, escreveu o crítico musical da Nouvel Observateur em 2013. Talvez Bronislaw Huberman tenha sentido o mesmo, o que o levou a recolher fundos para que a criança prodígio viajasse até Paris para estudar no Conservatório da capital francesa. Dois anos depois, com onze anos, era distinguido com o grande prémio da instituição.

No obituário que o Le Monde lhe dedica, Ivry Gitlis é elogiado como um violinista que desde há muito era visto como “uma das reencarnações possíveis de Paganini”, concorrendo para tão prestigiosa distinção “o carisma intenso, o desempenho extrovertido e a virtuosidade diabólica”. Escreve Marie-Aude Roux que seria “certamente fácil” encontrar entre os mais ilustres dos seus contemporâneos violinistas com “um tom mais luminoso, um arco mais subtil, uma interpretação concretizada mais serenamente”. Tais pormenores não eram porém o que lhe interessava na relação com o instrumento. O seu desempenho, “apaixonado e impetuoso, de uma vitalidade errante”, abria caminho para cenários de “tons ásperos, por vezes torturados”.

Em 1940, o ano em que a França capitulou perante o exército nazi, Gitlis refugia-se em Londres, onde participa no esforço de guerra trabalhando, primeiro, como operário em fábricas de armamento e, depois, tocando o seu violino para os soldados das forças aliadas. A sua estreia com a Filarmónica de Londres chegaria pouco depois do fim do conflito mundial.

A década de 1950, que o encontrou entre os Estados Unidos e a Europa, foi aquela em que se tornou um músico aclamado pelo público e reconhecido pelos críticos. A sua gravação do concerto para violino de Alban Berg, À Memória de um Anjo, valeu-lhe em 1954, em França, o Grand Prix du Disque. No ano seguinte, a abordagem a Bartók, registando o Concerto para Violino n.º 2 e a Sonata para Violino Solo, foi considerado o Disco do Ano pelo New York Herald Tribune.

Numa frase que é agora muito citada, proferida em 2007 perante jovens músicos, incitava-os a correr riscos e a recusarem a perfeição em favor de uma expressão mais livre. “Lembrem-se que uma bonita nota ‘errada’ de um Kreisler, de um Thibaud, de um Casals ou de uma Callas vale mais que mil notas ditas ‘correctas’ e que tocar o que é higiénica e objectivamente correcto não é necessariamente um sinal de boa saúde”. Foi essa atitude perante a criação que o levou, por exemplo, a juntar-se a John Lennon, Yoko Ono, Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell numa improvisação filmada para o espectáculo televisivo que os Rolling Stones produziram em 1968, The Rolling Stones Rock’n’roll Circus (que só conheceria lançamento oficial três décadas depois). E era isso que o levava, ao mesmo tempo que se distinguia na interpretação de Bartók, Paganini, Sibelius ou Tchaikovsky, a colaborar com nomes da música contemporânea como Xenakis (estreou Mykka(s) em 1972) ou Bruno Maderna, que lhe dedicou em 1971 Pièce pour Ivry.

Há cinco anos, Ivry Gitlis visitou Portugal, onde permaneceu alguns dias, no âmbito do Leffest - Lisbon & Estoril Film Festival (hoje Leffest - Lisbon & Sintra Film Festival). Na ocasião, participou numa das sequências de um espectáculo dedicado ao poeta Arseny Tarkovsky, pai do realizador Andrei Tarkovsky, interpretando Sicilliene, de Theresia von Paradis, e Schön Romarin, de Fritz Kreisler, acompanhado pelo pianista isrealita Itamar Golan.

“A sua inteligência devastadora, a sua técnica lendária, a sua hipersensibilidade, o contraste impressionante da sua interpretação, dura e sensível, fizeram dele um grande artista, mas também um homem comum, próxima das pessoas e da vida”, lemos no obituário da AFP. 

“O dia em que deixar de tocar o meu violino estarei morto”, disse certo dia à imprensa francesa. Com os seus cabelos em desalinho, os olhos fechados enquanto tocava, Ivrys Gitlis, que foi o primeiro músico israelita a tocar na União Soviética (1955), que era desde 1990 embaixador da boa vontade da Unesco, continuou activo até ao fim.