Fiat-Peugeot cria uma quadratura do círculo para Carlos Tavares liderar

Fusão deve estar concluída a 16 de Janeiro, quase dois meses antes do inicialmente previsto. Gestor português tem pela frente a quadratura do círculo no quarto maior fabricante do mundo, cuja sede será nos Países Baixos.

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A Stellantis será o quarto maior fabricante e o terceiro em receitas na indústria mundial Stephane Mahe/Reuters

Com mais de 99% de votos a favor, os accionistas dos grupos PSA (Peugeot-Citroën) e FCA (Fiat-Chrysler) deram luz verde à fusão dos dois construtores, tornando assim oficial o nascimento do quarto maior fabricante mundial de automóveis, que será liderado por um gestor português.

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Carlos Tavares assumiu funções no Grupo PSA em 2014 Denis Balibouse/Reuters

Tal como já se sabia, Carlos Tavares, antigo homem da Renault e líder da PSA desde 2014, será o presidente executivo (CEO) do novo grupo, que terá sede nos Países Baixos e adopta o nome Stellantis. O futuro de 14 marcas, os objectivos de poupança, a modernização do “braço Fiat” e a conquista do mercado chinês são quatro dos maiores desafios que tem pela frente.

O fim do processo de fusão, que será mais cedo do que se esperava, é apenas o início de uma missão espinhosa para o gestor português. Terá de obter as poupanças esperadas (sinergias estimadas de cinco mil milhões de euros) sem quebrar a promessa de não fazer despedimentos.

Ainda que a convergência de plataformas, motores e despesa de I&D em modelos futuros sirva esse objectivo (40% das poupanças), aquela meta parece a quadratura do círculo, visto que os dois grupos combinados estão com um excesso de produção de cerca de seis milhões de unidades por ano.

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A produção do Argo no Brasil, numa das fábricas da Fiat Washington Alves/Reuters

Um problema de excesso de produção

PSA e FCA podem produzir 14 milhões de veículos, nas diversas fábricas espalhadas pelo mundo, mas as vendas combinadas rondam os 8,6 milhões (ficam atrás da VW, da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e da Toyota). Na imprensa britânica, noticiava-se preocupações com as duas fábricas da Vauxhall (marca exclusiva do mercado britânico e que fabrica modelos que levam a marca Opel no resto da Europa). Mas há outras unidades que podem estar em risco, como a da Fiat na Sérvia que produz o Fiat 500L ou as de Cassino (ao serviço da Alfa Romeo) e de Grugliasco (que fabrica para a Maserati).

Fora destes problemas estará a unidade portuguesa da PSA, em Mangualde, onde trabalham 1000 pessoas. A produção no distrito de Viseu está focada nos comerciais ligeiros e a fábrica portuguesa é a mais eficiente de todas as deste construtor francês. Já era assim no passado e voltou a sê-lo agora, apesar da covid-19.

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Logotipo da nova empresa criada pela fusão entre PSA e FCA DR

Outros 35% da poupança esperada virão das compras e mais 7% serão poupanças nas operações de vendas e despesas gerais. O restante, espera o grupo, decorrerá de “optimização” na cadeia logística, nos serviços de qualidade e assistência. As receitas combinadas ascenderam a 165 mil milhões de euros, o que coloca o grupo no terceiro lugar do ranking mundial por receita. O CEO da FCA, Michael Manley, vai liderar as operações da Stellantis no mercado norte-americano.

O futuro incerto de algumas marcas

Outro ponto crítico que a Stellantis terá de resolver sob a batuta de Carlos Tavares tem a ver com o desempenho comercial e a identidade das marcas. O novo grupo tem um portefólio de 14 marcas, muitas delas de renome mundial.

A promessa inicial era a de manter a identidade de cada uma, mas o mau desempenho comercial no maior mercado de carros do mundo, a China, aliada a uma excessiva dependência das marcas PSA em relação à Europa (que é a fonte de 75% das receitas desse grupo), permitem especular sobre o fim ou, pelo menos, a reinvenção de algumas marcas.

No outro lado da moeda está a excessiva dependência do grupo FCA em relação ao mercado norte-americano, em que Jeep e Ram dão o maior contributo para as receitas.

“Nenhum fabricante global pode estar ausente da China”, sentenciava Tavares, em Novembro de 2020. Facto: a PSA vendeu 258 mil carros e a FCA 155 mil naquele país, onde se comercializaram 28 milhões de veículos (números de 2018). São quotas de mercado de 0,6% e 0,5%.

Por isso, Fiat, Chrysler, Lancia, DS ou Alfa Romeo são algumas das marcas que, devido a anos sucessivos de desinvestimento por parte da Fiat, ou por sobreposição com um portefólio agora alargado a 14 marcas, podem ter o futuro em risco ou serem obrigadas a reposicionar-se.

Para tal, contribui também o atraso significativo de algumas marcas (sobretudo do ramo Fiat-Chrysler) na mobilidade eléctrica e, em particular, no que diz respeito ao cumprimento dos limites de emissões de CO2 cada vez mais rigorosos na União Europeia.

“Nós estamos preparados para esta fusão”, garantiu esta segunda-feira Carlos Tavares, após a votação dos accionistas da PSA, citado pela Reuters. A Stellantis terá “um papel de liderança quando a próxima década redefinir a mobilidade”, prometeu John Elkann, chairman da FCA e da nova empresa, avaliada em 42 mil milhões de euros, que nasce com esta fusão.

Fusão concluída até dia 16

Em duas assembleias gerais separadas, realizadas neste dia 4 de Janeiro de 2021, os accionistas de ambos os grupos deram a bênção ao casamento que estava a ser preparado desde 2019. Quatro dias antes do Natal, a Comissão Europeia aprovou a fusão, depois de avaliar o impacto do negócio no mercado dos veículos ligeiros de mercadorias.

Concluindo que não haveria concentração de poder de mercado, Bruxelas autorizou a fusão. E, ao quarto dia de 2021, cumpriu-se a última formalidade, com a aprovação por parte dos accionistas: 99,85% a favor na PSA; 99,15% na FCA. O objectivo de fusão da Fiat, alimentado por mais de uma década pelo ex-líder da marca italiana, Sergio Marchionne (que morreria no Verão de 2018), e que falhou na tentativa de aliança com a Renault, ficou definitivamente assegurado.

Até agora, os responsáveis de ambos os lados diziam que a meta era concluir a fusão até Março deste ano. Mas ainda que haja muitos detalhes pendentes, o processo acelerou. O que permite encurtar significativamente o calendário, apontando-se o fim do processo para dentro de 12 dias, a 16 de Janeiro, de acordo com o comunicado conjunto divulgado na tarde desta segunda-feira.

“Na sequência das aprovações de hoje [segunda-feira] por parte dos accionistas e da recepção das autorizações regulatórias finais, durante o mês de Dezembro, incluindo as da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, a FCA e o grupo PSA esperam completar a fusão a 16 de Janeiro de 2021”, lê-se no comunicado, que acrescenta que “as acções comuns da Stellantis serão admitidas na bolsa Euronext Paris e no Mercato Telematico Azionario de Milão na segunda-feira, 18 de Janeiro, e na bolsa de Nova Iorque, na terça-feira, 19 de Janeiro”.

Os dois grupos que se fundem deterão 50% cada um da nova empresa. Assim que se concluir a fusão, a FCA pagará ainda um dividendo especial de 2900 milhões de euros aos seus accionistas.