Segunda-feira foi o dia com mais mortes dos últimos 12 anos em Portugal

Foram contabilizadas nesta segunda-feira 633 mortes. Grande parte são atribuídas a causas naturais. A covid-19 e a onda de frio que se tem feito sentir nas últimas semanas podem estar a influenciar estes números.

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577 dos óbitos registados foram por morte natural Nuno Ferreira Santos

Portugal registou na passada segunda-feira o dia com mais mortes dos últimos 12 anos. Foram reportadas 633 mortes — por todas as causas — em 24 horas, de acordo com os dados do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO), actualizados às 21h desta terça-feira. Dos 633 óbitos, 577 foram morte natural, cinco por causa externa e 51 estão ainda sujeitos a investigação. Segundo os especialistas contactados pelo PÚBLICO, a covid-19 e a onda de frio que se tem feito sentir nas últimas semanas podem estar a influenciar estes números.

Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), explica que o país enfrenta actualmente, e há várias semanas, “um excesso de mortalidade elevadíssimo” relativamente à média de 2009-2019. Na segunda-feira, foram reportados 248 óbitos acima da média para o décimo primeiro dia de Janeiro, que ronda os 385 óbitos. Nos últimos 12 anos, em nenhum se tinha ainda alcançado, a 11 de Janeiro, mais de 448 óbitos (valor este que foi reportado em 2009), um número que foi agora largamente ultrapassado.

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SICO

As mortes desta segunda-feira foram registadas em duas crianças com menos de quatro anos; duas pessoas entre os 25 e os 44 anos; 56 adultos entre os 45 e 64 anos; 276 pessoas entre os 65 e os 84 anos e 297 com mais de 85 anos. Os números que constam no SICO são actualizados de dez em dez minutos, o que significa que estes dados ainda podem sofrer alterações.

Além de corresponder ao maior número de mortes diárias reportadas a 11 de Janeiro dos últimos anos, as 633 mortes registadas esta segunda-feira correspondem também ao valor diário de óbitos mais alto (independentemente do dia) dos últimos 12 anos, mais concretamente desde 2009, primeiro ano em que estes dados estão disponíveis. Em segundo lugar encontra-se o dia anterior, 10 de Janeiro de 2021, data em que foram registados 583 mortos e, em terceiro, o dia 2 de Janeiro de 2017, quando foram contabilizadas 578 vítimas mortais. Esta terça-feira aparece em quarto lugar, uma vez que foram registadas 520 mortes (155 destas atribuídas à covid-19).

É usual observar-se nos meses de Janeiro um aumento da mortalidade, mas nada como o que se está a verificar este ano. Em 2019, por exemplo, o frio e a gripe mataram mais de 3 mil pessoas em todo o Inverno. “Em Janeiro, a média (de 2009-2019) vai dos 380 óbitos no primeiro dia aos 370 no final do mês”, revela o especialista.

A covid-19 é apenas responsável por 122 das mortes reportadas esta segunda-feira, o que significa que a doença causada pelo novo coronavírus explica cerca de metade dos óbitos em excesso (248) face à média. Para Vasco Ricota Peixoto, médico e investigador da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), a covid-19 continua a ter uma carga grande no excesso de mortalidade, mas neste momento o que pode estar a pesar em parte igual na mortalidade pode ser a vaga de frio.

“O frio é sem dúvida uma explicação importante. Julgo que a situação que temos vivido já se enquadra perfeitamente numa onda de frio e há muita população vulnerável com doenças crónicas que pode estar a descompensar ou a agravar essas doenças. Demos um salto a pique e muito rápido entre o fim de Novembro e o início deste ano no que toca à mortalidade”, diz. “Não é logo no primeiro dia de frio que a mortalidade aumenta, há uma descompensação, às vezes há uma ida para o hospital, etc”.

Carlos Antunes destaca que “o frio pode estar a desencadear óbitos não só por covid-19, mas também por outras patologias”. Além disso, “o facto de termos os hospitais lotados e de muitas pessoas terem medo de ir aos hospitais e não recorrerem às urgências” também poderá contribuir para estes níveis de mortalidade. “Quanto menos camas disponíveis tivermos maior é a mortalidade porque menos capacidade há de assistência”, diz.

O especialista da ENSP tem uma opinião semelhante: “as pessoas podem pensar que os hospitais estão sob muita pressão e têm receio de serem infectados ou pensam ‘não vou porque há pessoas que estão piores do que eu com covid-19. Há coisas que se deixam agravar, problemas que as pessoas não valorizam, por exemplo, que podem contribuir para a mortalidade em excesso”.

Certo é que a covid-19 não explica tudo, embora os números recentes da situação da pandemia em Portugal façam antever que “o excesso de mortalidade vai continuar alto”.

Carlos Antunes acredita que o país poderá ainda não ter atingido o pico de mortalidade e poderá vir ainda a registar “um número de mortes diário maior ou desta magnitude”, uma vez que “o excesso de mortalidade está a aumentar diariamente e ainda não houve sinal de inversão”. Se esta situação estiver relacionada com a vaga de frio, serão ainda necessários alguns dias até que estabilize, uma vez que os valores “não diminuem de um dia para o outro”, decrescendo gradualmente até “entrarem dentro da normalidade e chegarem à média dos tais 370 óbitos diários”.

Gripe não está a contribuir para a mortalidade

Vasco Ricota Peixoto aponta também que é costume que a subida de casos de gripe se verifique nesta altura. “As festividades sempre foram um momento de espalhar a gripe pelo hemisfério Norte porque o frio e o facto de estarmos mais tempo em espaços fechados ajudam a espalhá-la”. O médico diz, por isso, que nas próximas semanas podemos assistir a um aumento da mortalidade. “A covid-19 é difícil de controlar mesmo com todas estas medidas, mas a gripe é mais fácil. Ainda assim, vamos assistir a uma subida de casos de gripe que vão aumentar a mortalidade, algo que não acontecerá na mesma escala do que a covid-19”, diz.

Segundo o último boletim de vigilância epidemiológica da gripe e outros vírus respiratórios, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa), referente a 28 de Dezembro a 3 de Janeiro, não foram reportados casos de gripe pelos profissionais que colaboram com a rede de médicos sentinela (sistema de observação e vigilância constituído por médicos de família).

Em 2020, o excesso de mortalidade em Portugal teve vários picos e a covid-19 não explicou todas as mortes em excesso. Julho foi, por exemplo, o mês com mais mortes em 12 anos. Nessa altura, uma onda de calor foi apontada pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) como principal responsável.