Menos pessoas nas ruas do Porto e Lisboa mas escolas abertas justificam movimento quase “normal”

O país voltou a trancar-se em casa, ou pelo menos assim se esperava depois do recolher obrigatório em vigor a partir das 00h00 desta sexta-feira. Longe das cidades fantasma que vimos em Março, Porto e Lisboa iniciaram o segundo confinamento com um cenário de aparente normalidade, entre metros cheios, filas nas paragens de autocarro, cafés com venda à porta, lojas de grades corridas até baixo e pouco policiamento. Comerciantes e transeuntes acreditam “que vai ser preciso apertar as medidas”.

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Ao raiar da manhã, quem calcorreava as ruas do Porto e de Lisboa tinha a mesma impressão de estar perante uma sexta-feira normal – o normal de máscara, álcool-gel e distanciamento social que já não é novo e que conhecemos desde que a pandemia se instalou em Portugal, em Março passado –, em vez do primeiro dia de um novo confinamento geral decretado pelo Governo, a vigorar desde a meia-noite desta sexta-feira e, para já, até 30 de Janeiro. Ambas as cidades se esvaziaram ligeiramente, mas nada que se compare ao cenário desértico e silencioso do primeiro recolher obrigatório. Os metros continuam a seguir-se uns aos outros, cheios de adolescentes e jovens que fazem o percurso habitual para as aulas, e ainda se formam aglomerados de pessoas nas paragens de autocarros, alguns no último dia de trabalho antes de entrar em confinamento, outros a correr para fazer as últimas compras antes de voltar a ver o mundo pela janela. 

Vídeo: O novo confinamento. Comércio fechado e escolas abertas

Ainda não são nove horas e a plataforma da estação da Trindade, no Porto, está quase tão apinhada como em qualquer outro dia, embora as pessoas guardem a devida distância umas das outras. “Não percebo isto”, comenta uma senhora que aguarda a sua vez para entrar na carruagem e observa as composições cheias. “Basta as escolas estarem abertas”, justifica outra, face à pouca diferença que se verifica. Ciderlane Cardoso está à espera do metro para Pias e diz ver “o mesmo movimento”. “Se as escolas continuam abertas, isto vai continuar assim, até porque os pais têm de levar os filhos às escolas”, comenta, enquanto aguarda pelo metro para ir até ao café onde trabalha. “Hoje vai ser só em take-away e com um par de mesas cá fora”, explica ao PÚBLICO. 

Cafés mantêm vida nas ruas

A venda ao postigo e à porta voltou a ser realidade na sempre movimentada Rua Morais Soares, no coração de Lisboa, hoje também com menos gente que o costume. Na confeitaria Flor do Império faz-se fila para o café, que voltou a ser servido em copos de papel. Paulo Silveirinha, ali funcionário há cinco anos, resume o negócio da forma possível: “Tem corrido mais ou menos.” Têm saído cafés, bolos e sandes. Há menos pessoas na rua, mas “mais do que esperava”, o que acaba por ser bom para um negócio que esteve encerrado de Março a Maio. São os cafés que mantêm alguma vida nas ruas, mesmo sem poder ter a clientela no interior dos estabelecimentos. Joaquim Fernando, da mercearia portuense Feira do Bacalhau, a dois passos da Trindade, afirma que desta vez “os cafés e restaurantes estão mais preparados”. “Tenho alguns [estabelecimentos] vizinhos que no primeiro confinamento não estavam abertos e agora estão”, refere o proprietário. “Eles põem uma mesinha à porta e já está, servem assim”.

Esta é a única loja aberta neste troço da Rua do Bonjardim, onde pouco mais se ouve que o barulho de obras e, ao longe, o grasnar das gaivotas, mas Joaquim admite que “ainda não se nota nada, porque veio muita gente trabalhar”. No caminho para a loja deparou-se com um “trânsito louco junto às Antas, como sempre”. Apesar de os carros serem visivelmente menos, também em Lisboa há “mais trânsito do que devia haver”, constata o taxista que conduziu o PÚBLICO à Morais Soares. Pegou no carro pouco antes das 8h e só saiu para o primeiro serviço do dia às 10h. 

Dois polícias passam de bicicleta ao fundo da Rua Fernandes Tomás, a chegar ao Bolhão, mas não há propriamente uma acção de fiscalização montada. Mais adiante, na Rua de Santa Catarina, a artéria comercial mais importante do Porto, está praticamente vazia, salvo algumas pessoas e carrinhas que se apressam para descarregar até às 11h. Contudo, há ainda quem pareça esperar pelo comércio que não vai abrir. “A que horas abrem as lojas?”, ouviu-se perguntar num café da rua. A dona do estabelecimento, que prefere não ser identificada, aponta que “isto não é confinamento nenhum, é só dizer que as lojas estão fechadas, porque os shoppings continuam abertos”. “Há bocado uma senhora entrou aqui com um carrinho de bebé e pediu para se sentar, porque precisava de fazer tempo para ir ao shopping”, relata.

"Esqueceram-se do confinamento"

Também na capital dá ideia “que as pessoas se esqueceram todas [do início do novo confinamento]”, nota Berta Rodrigues, no interior do seu quiosque, na Avenida Almirante Reis. Naquela que é uma das principais avenidas lisboetas, o barulho dos carros e das buzinas faz lembrar um dia normal. Há filas para os cafés e para os quiosques, porque há quem não queira adiar tentar a sua sorte. Para a comerciante, a julgar pelo que vê hoje, estas medidas mais duras não vão surtir grandes efeitos. Como está ali, voltada para a rua, vê muitas pessoas a circularem sem máscara ou com ela mal colocada. E pouca fiscalização para alertar essas pessoas. Em alguns cafés, diz, tem também havido abusos nos horários de funcionamento. E, mais uma vez, pouca fiscalização. “Da outra vez foi mais rigoroso”, observa. “Os cafés estavam todos fechados e agora estão quase todos abertos”, diz. Por isso, naqueles primeiros dias, acabou por fazer bom negócio com na venda de tabaco. “As pessoas compravam maços e maços.”

A sobrevivência tem sido uma luta diária para Berta, que tem já duas pessoas em casa desempregadas por causa da pandemia. No seu entender, o comércio deveria ser mantido com o horário de funcionamento normal, mas com restrições à lotação, como até aqui. “Como diz alguém na televisão, o confinamento é para ricos. Ninguém sobrevive do ar.” A operar no mesmo ramo, mas mais a norte, Margarida Novais concorda que o negócio “não está como antigamente”, mas afirma ter a vida facilitada face à crise sanitária por “não ter empregados”. Está há mais de 40 anos na Tabacaria de Santo António, perto da Estação de São Bento, mas nunca viu nada assim. “Desta vez há mais gente a circular”, assegura. Com a pandemia, muitos dos alojamentos locais que se iriam instalar na 31 de Janeiro não avançaram, por isso está “tudo muito parado”. Isto porque esta é uma rua em grande parte forrada com lojas de roupa, calçado e artesanato.

Mas se nalguns pontos das cidades se vê movimento, noutras, mais dependentes do comércio não essencial ou do turismo, o silêncio impera. É o caso da Baixa de Lisboa. As lojas estão fechadas mas, no seu interior, aproveita-se para fazer limpezas ou mudar montras. Notam-se menos cafés abertos. No Chiado, poucas pessoas percorrem a Rua Garret e a Rua do Carmo, duas grandes artérias comerciais. A Brasileira e a Pastelaria Bénard estão encerradas. Os taxistas estão fora dos carros, ao sol a fumar o seu cigarro, à espera de alguma sorte. As bicicletas e motas das empresas de entregas começam, por volta do meio-dia, a andar para cima e para baixo. 

Na Pastelaria Nené, aberta na Rua Augusta desde 1963, estuda-se ainda como se vai fazer o atendimento ao cliente. Um dispensador de álcool-gel, uma mini montra para ter algumas coisas à entrada. Tudo take-away, cumprindo as indicações da Direcção-Geral de Saúde, diz Pedro Marques, o gerente. De Março a Maio, esta pastelaria esteve encerrada. Nesta fase, encerrar significaria “insolvência”. “Trata-se de uma questão de sobrevivência”, diz.

Excepções são preocupação

Habituada ao corrupio de turistas, que representavam 90% do negócio, as quebras neste estabelecimento ao longo de 2020, tendo por referência o ano anterior, variaram entre os 85 e os 89%, ascendendo aos 175 mil euros. Como sobrevivem? Com fundo de maneio, empréstimos à banca e apoios do Estado. O panorama torna-se tanto mais preocupante quanto mais turística a zona da cidade e o mesmo se aplica ao Porto.

“O Governo demora muito a anunciar, aprovar e a dar apoios à restauração”, queixa-se Luís Bateira, da Sabores da Invicta, situada no passeio em frente à estação de São Bento. “Tem sido difícil aguentar.” Num dia normal, a Farmácia Parente já teria atendido “mais de 20 pessoas” entre as 9h e as 11h. Hoje só entraram três clientes nesse período. A rua das Flores acolhia diariamente resmas de turistas nos últimos anos, mas agora “não há ninguém”. “Tiraram-nos os velhinhos todos [que moravam no centro histórico]”, conta Clara Sousa. A farmacêutica acredita que “haverá muita gente a sair para furar [o recolher obrigatório]”. Pouco antes de conversar com o PÚBLICO, veio à porta abordar uma cliente idosa que seguia apressada. “Perguntei-lhe o que andava aqui a fazer e ela disse-me ‘fui à missinha’”, descreve. 

São excepções como os estabelecimentos de ensino ou as igrejas, autorizados a permanecer abertos, que a preocupam. A filha mais velha estuda Direito na Universidade do Porto e teve um exame presencial recentemente com “mais de 70 pessoas na sala”. Também o merceeiro Joaquim Fernando se mostra reticente com as medidas. “Ainda há muita gente na rua e o Governo vai ter de impor mais restrições”, considera.

Tendo no horizonte um confinamento de um mês, Pedro Marques, da Pastelaria Nené, já está a preparar-se para que dure mais tempo. “O que me está a parecer é que as medidas não vão ter assim tanto efeito porque metade do país está em casa e outra não”, diz. Neste primeiro dia de confinamento, junto ao Tejo, persistem algumas pessoas que passeiam em dupla ou sozinhas. Tal como em Março, mantêm-se os corredores activos.

Na principal avenida do centro da cidade de Aveiro, a Lourenço Peixinho, este parece ser um dia igual a tantos outros. A excepção são as portas e montras encerradas de alguns estabelecimentos comerciais. Também nos acessos à cidade, nomeadamente a antiga EN 109, o trânsito desta sexta-feira é idêntico ao do período pré-confinamento.

As ruas de Guimarães não estão desertas na primeira tarde do mais recente confinamento geral determinado pelo Governo, mas é pouca a gente que circula ao sol vespertino. Isoladas ou em pares, as pessoas calcorreiam os passeios de artérias como a Avenida D. João IV e a Alameda de S. Dâmaso, distando mais de dois metros entre si. Já no Toural, uma das principais praças da cidade, não se vêem mais de 10 pessoas em toda a área.

Apesar da reduzida presença humana, várias das zonas de estacionamento automóvel à superfície continuam bem preenchidas, em números embora inferiores aos dias em que as actuais restrições não vigoravam. Aliás, o trânsito rodoviário flui com regularidade na cidade, mas sem congestionamento, à excepção da variante de Creixomil, no sentido que liga a cidade à rotunda de Silvares, onde estão as entradas para a A7 e a A11.  Nessa via, a fila de veículos por volta das 15h45 estendia-se por cerca de um quilómetro. Mas as dificuldades de circulação têm sido recorrentes, devido à construção do túnel de acesso à auto-estrada sob a rotunda, com conclusão prevista para Fevereiro.