De novo confinados, eis as dicas de Marie Kondo para viver a casa da melhor (e mais feliz) maneira

Como decidir o que guardar e o que deitar fora? E como transformar a casa no escritório diariamente para no fim de todos os dias voltar a usá-la como lar? A guru da arrumação Marie Kondo dá dicas para confinar com alegria.

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"O segredo para derrotar a desordem é dar a cada item um lar", diz Marie Kondo DR

Marie Kondo tornou-se um ícone da cultura pop após a publicação do seu livro Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida (ed. Pergaminho) Desde então, Kondo, a fundadora da KonMari Media, tornou-se estrela do programa A Magia da Arrumação na Netflix, criou uma linha de produtos de organização, ofereceu cursos online com os seus métodos e escreveu mais livros sobre como destralhar e viver uma vida que desperta alegria. Foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes da revista Time.

Num altura em que muitos estão em teletrabalho, que conselhos tem para separar a vida profissional da pessoal?
Antes de começar a trabalhar, tire um momento para se centrar. Eu uso um diapasão antes do início de um dia de trabalho. Também coloco um difusor com um óleo essencial estimulante para sinalizar ao meu corpo que estou a mudar de sintonia. Este momento não tem de ser elaborado – quanto mais simples, melhor, porque será mais provável que o faça todos os dias. Da mesma forma, marque o fim do seu dia de trabalho com um ritual simples. Ligue a música, desligue as notificações… O que quer que lhe permita passar para a parte seguinte do seu dia com facilidade.

Por qual divisão da casa se deve começar a destralhar?
No Método KonMari, a arrumação é feita por categoria, não por localização. A ordem a seguir é: vestuário, livros, papéis, “komono” (artigos diversos) e artigos sentimentais. Se arrumar por divisão, nunca poderá avaliar verdadeiramente quanto de um determinado item possui – e estará condenado a apanhar pilhas de lixo para sempre!

A pandemia acelerou a minha mudança da cidade para os subúrbios. Ainda estou a desfazer as malas. Que recomendações tem para criar uma nova casa e encontrar o lugar certo para os seus artigos?
Arrumar a sua casa actual é a coisa mais importante que pode fazer se se está a preparar para se mudar. Não espere para o fazer até estar no seu novo espaço. Contudo, se já estiver na nova casa, imagine como quer viver nesse espaço; permita que essa visão o guie através do processo de desempacotamento — e desfrute! Isto marca um novo capítulo. Depois desempacote os artigos que são fáceis e óbvios de guardar: roupa nas gavetas ou armário, materiais e utensílios de cozinha, etc.. À medida que vai desempacotando, deparar-se-á com artigos da mesma categoria. Agrupe-os para que o processo corra mais suavemente.

Não se apresse a preencher o seu novo espaço com artigos que pensa precisar. Em vez disso, viva nele durante algumas semanas, ou mesmo meses, sem eles pois a sua casa dir-lhe-á do que precisa e onde colocá-los.

Como recomenda o armazenamento de roupas de criança crescidas que pretende guardar? A próxima criança não precisará da roupa durante alguns anos, mas não quero ver-me livre de boa roupa e ter de comprar mais tarde.
Designe um determinado espaço para guardar estas roupas, tais como duas gavetas ou uma prateleira num armário. Respeite esses limites, ou então esses artigos tomarão conta do seu espaço.

Se tem um artigo que não lhe dá alegria, mas precisa de poupar dinheiro durante algum tempo até o poder substituir, como é que se lida com isso?
É sensato manter o item até que se possa dar ao luxo de o substituir. Visualize a sua substituição à medida que poupa para que se mantenha motivado e inspirado. Entretanto, trate o artigo que tem com gratidão. É importante apreciar e cuidar dos objectos com os quais vivemos.

Parece ter ganhado a reputação de ser anti-livros, e pergunto-me se isso é verdade?
Penso que há um mal-entendido acerca do que penso sobre livros! Quando publiquei pela primeira vez o meu livro Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida, afirmei que guardei cerca de 30 livros depois de ter arrumado a minha própria casa, mas isso nunca pretendeu ser uma regra. O objectivo do Método KonMari é determinar os seus valores e rodear-se do que mais aprecia. Se os livros despertam alegria em si, guarde-os com confiança.

Na nossa casa, temos constantemente membros da família à procura de chaves, carteiras, etc.. Alguma sugestão para manter um registo de tais itens essenciais?
O segredo para derrotar a desordem é dar a cada item um lar – um lugar designado para esse objecto viver quando não está a ser utilizado. Quando se trata de objectos que vários membros da família utilizam, é essencial arrumar em conjunto, decidir para onde estes objectos irão e concordar em colocá-los sempre de volta onde pertencem.

Quais são as suas principais dicas para organizar uma pequena cozinha?
Primeiro, imagine como seria a sua cozinha ideal, e considere como iria viver e utilizar o espaço. Percorra os itens na cozinha, e crie subcategorias: artigos de cozinha, alimentos, etc..

A seguir, identifique os itens nessas subcategorias que provocam alegria. Guarde-as, e deixe o resto para trás. Elimine todos os artigos expirados da despensa e do frigorífico. Utilize qualquer produto que precise de ser comido, e reserve restos de vegetais para fazer um caldo nutritivo. Depois, maximize o seu espaço de armazenamento. Recomendo o armazenamento vertical dos artigos, para que sejam fáceis de retirar, e mais importante, de colocar de volta. No entanto, se o espaço for mínimo, não há problema em empilhar os itens. Basta manter as torres pequenas.

O meu marido não quer destralhar, e também não quer que eu o faça. O que devo fazer?
Não pode forçar outra pessoa a arrumar; o indivíduo deve querer mudar por si próprio. A coisa mais eficaz que se pode fazer para influenciar outra pessoa é KonMari as suas próprias coisas; arrumar pelo exemplo. A arrumação é contagiosa. Segundo a minha experiência, à medida que os meus clientes se põem a arrumar, os seus familiares também começam frequentemente a fazê-lo. Eles testemunham em primeira mão como a vida diária melhora após a organização, e tornam-se naturalmente interessados em arrumar. No vosso caso, posso sugerir que arrumem os seus pertences enquanto o seu parceiro não estiver presente. Lembre-se, não se intrometa nas coisas dele.

Como posso arrumar as decorações de Natal? Estas provocam alegria durante um mês, mas depois são um problema o resto do ano. Além disso, o que pensa sobre artigos relacionados com as tradições ou transmissão da história/cultura da família aos mais novos? São objectos não despertam propriamente alegria, mas são importantes para os nossos valores.
Sugiro o armazenamento das decorações de Natal de uma forma que lhe desperte alegria. Por exemplo, utilizo um recipiente transparente e coloco um cartão ou decoração das festas no topo. Isto ajuda-me a saber o que está lá dentro – mas também inspira uma emoção de prazer quando o vejo no meu espaço de armazenamento. Quando se trata de heranças familiares e decorações tradicionais de Natal ou outras festas, esforço-me por tomar bem conta delas. Quanto mais o faço, mais me aproximo para as acarinhar.

O que se deve fazer quando se tem um presente de alguém pelo qual se está grato, mas para o qual não se consegue realmente encontrar um lugar? E a pessoa que deu esse presente gosta de o ver a ser usado…
Recomendo que experimente pelo menos uma vez todos os presentes, mesmo aqueles que não despertam imediatamente alegria. A capacidade de sentir o que realmente o excita só é adquirida através da experiência. Seja aventureiro, e dê as boas-vindas a coisas que são diferentes. Quanto mais experiência ganhar, mais aperfeiçoará e aumentará a sua sensibilidade à alegria.

Mas não tem de continuar a usar esse presente para sempre. Se tentar usar o artigo e decidir que ainda não lhe convém, agradeça-lhe a alegria que lhe trouxe quando o recebeu pela primeira vez e despeça-se dele. O verdadeiro propósito de uma prenda é ser recebido, porque os presentes são um meio de transmitir os sentimentos de alguém por si. Quando visto desta perspectiva, não há necessidade de se sentir culpado por se despedir de um objecto que, em última análise, não desperta alegria. Dito isto, só a pessoa é que pode decidir o que lhe parece certo. Se se sentir mais à vontade e manter o artigo por causa de quem o ofereceu, então faça isso.