Carta aberta a Pedro Passos Coelho

Não lhe parece que os portugueses, nomeadamente todos os que ainda suspiram por si, lhe merecem uma demarcação pública do ideário diariamente vociferado pelo candidato presidencial da extrema-direita?

De vez em quando, o senhor tem-nos recordado, com esforçadas demonstrações de vida, que se mantém atento e preocupado com as questões mais prementes, ou que o senhor considera mais prementes, da nossa vida nacional.

Creio que a sua última performance indicativa de sinais vitais se ficou a dever não a uma justa indignação e legítima revolta, que eu, mesmo que surpreendido, claramente aplaudiria, com o comportamento do Estado e das Autoridades portuguesas na tortura e assassinato do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk, mas antes ao aproveitamento político que decidiu fazer desse infame episódio para criticar os actuais governantes e sair em defesa das forças de segurança nacionais. É, apesar do gosto duvidoso, legítimo e compreensível que o faça, sobretudo como prova de vida de quem, com assinalável energia crística, aspira a uma ressurreição. Até aqui, portanto, nada a apontar e tudo normal, ou, como se dizia durante as invasões francesas, “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

Passemos então ao que aqui me traz.

Não sei, nem consigo imaginar, se concorda com a seguinte premissa: no actual xadrez da nossa revisteira ribalta política, e como muito eloquentemente o demonstraram os debates televisivos entre os candidatos presidenciais, só as direitas portuguesas, social-democrata ou conservadora, democrata-cristã ou liberal, ou mesmo todas juntas, podem combater, desmontar e eficazmente travar a ascensão da extrema-direita no nosso país.

Como tudo na vida política, a premissa que enuncio é discutível mas parece-me, infelizmente, axiomática. E torna, portanto, exigível a quem se preocupe verdadeiramente com a nossa vida democrática e o nosso estado de direito, a quem teve e aspira a voltar a ter responsabilidades políticas em Portugal, a quem sabe ou mesmo apenas presume que a sua palavra ainda vale para muitos portugueses, a quem assiste à utilização despudorada (ou não?) do seu nome por essa extrema-direita, que se pronuncie e demarque (ou não?) quanto antes.

Perante os olhos e ouvidos de um milhão e oitocentos mil telespectadores, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa já retirou da boca da extrema-direita a impúdica e inescrupulosa invocação dos nomes de Francisco Sá-Carneiro e do Papa Francisco. Mas o seu nome, caro senhor, incensado e sistematicamente invocado, permanece como referência nacional recorrente e única significativa do candidato da extrema-direita. Ao lado de Marine Le Pen, Salvini, Trump e Bolsonaro.

Sabemos que a première política do candidato da extrema-direita foi patrocinada por si, ao escolhê-lo para vereador do PSD em Loures, e reconfirmada também por si ao não se demarcar e retirar consequências, como fizeram os seus companheiros de coligação governativa, das declarações assumidamente racistas e xenófobas feitas pelo seu escolhido no exercício do cargo que o senhor lhe ofereceu.

Todos nos enganamos e cometemos erros, e eu acredito (ou desejo acreditar?) que o senhor será capaz, hoje, de admitir sem rebuço que se enganou e errou nessa escolha.

Mas o que, hoje, me preocupa não é já esse passado, embora recente e determinante para a promoção do citado candidato, mas sim o nosso presente e, sobretudo, o nosso futuro como estado democrático e de direito. 

O senhor pretende ficar em silêncio perante a sistemática utilização do seu nome e, portanto, da sua vida política passada e futura, como referência e émulo do partido português da extrema-direita? O senhor prefere manter-se num ambíguo, suspeito mas ruidoso silêncio perante o desfraldar de uma bandeira com o seu rosto pelas mãos da extrema-direita? O senhor aceita tão descarado oportunismo? Ou não lhe parece que os portugueses, nomeadamente todos os que ainda suspiram por si, lhe merecem uma demarcação pública do ideário diariamente vociferado pelo candidato presidencial da extrema-direita?

Sinceramente preocupado com o seu silêncio, envio-lhe os meus cordiais cumprimentos.