Cirurgias oncológicas prioritárias já marcadas “não devem ser adiadas”

O impacto do aumento da taxa de mortalidade não será visível este ano, mas sim a partir do terceiro, quarto anos após o início da pandemia, prevê a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

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Ana Raimundo, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia DR

A Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) acaba de lançar a campanha “O cancro não espera em casa” para destacar a importância do diagnóstico atempado dos cancros, mesmo durante a pandemia de covid-19. Em caso de sintomas de alarme, as pessoas devem procurar o seu médico, sublinha a presidente da SPO, Ana Raimundo, que defende que as cirurgias prioritárias que já estão marcadas até ao final deste mês, e que foram suspensas por despacho da ministra da Saúde na quarta-feira, não devem ser adiadas. “A taxa de mortalidade [por cancro] é muito superior à da covid”, enfatiza.

Numa altura em que foi decretado um novo confinamento e em que o Ministério da Saúde mandou adiar até as cirurgias prioritárias não é um contra-senso lançar uma campanha intitulada “O cancro não espera em casa"?
Parece um contra-senso mas não é, porque, apesar de estarmos numa situação complicada, não podemos esquecer que existem outras doenças. A pessoa deve ficar em casa mas deve sair quando é justificável que saia, se tiver potencialmente uma doença grave. Queremos chamar a atenção para determinados sintomas de alarme, seja um nódulo que palpe com crescimento progressivo, um emagrecimento, uma fraqueza generalizada que se mantêm sem explicação, perda de sangue nas fezes. Se estes sintomas persistem ao longo do tempo, as pessoas devem procurar a avaliação pelo seu médico de família, o seu médico assistente.

Mas neste momento os centros de saúde estão com muitas limitações.
Pois estão. O que queremos dizer é que as pessoas não devem desistir. Podem não ter a consulta hoje ou amanhã, mas não devem esperar meses. Temos que ter bom senso e ter em consideração que sistema de saúde está sobrecarregado, mas o problema é que estamos a receber nas nossas consultas de oncologia médica pessoas com diagnósticos em fase tardia. 

Quantos exames, consultas, cirurgias oncológicas foram cancelados ou adiados desde o início da pandemia?
Não tenho os números. Só sei aquilo que foi divulgado na comunicação social e que foi apresentado pelo Ministério da Saúde — e foram milhares de consultas e cirurgias que ficaram por fazer. Mas o Ministério da Saúde só deu os números globais, não sei quantas cirurgias oncológicas ficaram por fazer.

Não há registos?
Não. O registo oncológico ainda não nos deu os dados referentes a 2020 e também não deu os de 2019. O que dizem é que durante este ano irão dar os dados de 2020 para podermos ver quantos diagnósticos estão a ser feitos em fases mais tardias. E são os diagnósticos tardios que nos preocupam e nos levam a fazer esta campanha.

Mas especificou há meses que ficaram por fazer entre 60 a 80% diagnósticos. Em que dados se baseou?
Isso corresponde ao período de tempo de Março a Abril do ano passado. No final do ano passado estava a haver uma grande recuperação.

Nos hospitais da CUF, onde trabalha, tem ideia de quantos diagnósticos ficaram por fazer?
No total do ano inteiro, tivemos menos cerca de 20 a 30% de diagnósticos.

E no Serviço Nacional de Saúde?
Não tenho esses números. Segundo os dados que a Liga Portuguesa contra o Cancro apresentou no congresso nacional de oncologia em Novembro passado, só devido à suspensão e depois à redução dos rastreios, ficaram mais de mil cancros por diagnosticar.

Quantos novos casos são diagnosticados por ano?
Mais de 50 mil novos casos por ano. Ao começarem a ser diagnosticados em estadios mais avançados, com tratamentos mais complexos, vamos ter uma acumulação de listas de espera e vai ser complicado recuperar [os atrasos], o que terá como impacto principal um aumento da taxa de mortalidade.

Esse impacto já se faz sentir?
O impacto deste aumento da taxa de mortalidade não será visível este ano, mas sim a partir do terceiro, quarto anos [após o início da pandemia]. Por ano, temos habitualmente à volta de 30 a 40 mil mortes por ano, a taxa de mortalidade [por cancro] é muito superior à da covid. E é por isso que dizemos que não é um contra-senso fazer esta campanha. É nossa responsabilidade lembrar que não podemos esquecer as outras doenças. Claro que compreendemos as actuais limitações do sistema de saúde, mas temos que lembrar que existem soluções para diminuir este impacto.

Que soluções?
Priorizar os casos mais prioritários e tratá-los, fazer uma reorganização dos cuidados de saúde oncológicos em rede nas diferentes regiões, concentrar os cuidados oncológicos em determinados centros e até deslocar equipas, se for necessário, mas isso depende muito de uma organização das administrações regionais de saúde, do Ministério da Saúde.

A ministra da Saúde determinou por despacho que os hospitais adiem não só as cirurgias de prioridade normal mas também as cirurgias prioritárias, incluindo as oncológicas. Parece-lhe uma medida adequada?
Isso está bem definido. Um decreto de 2017 fez uma classificação por prioridade das cirurgias, mesmo as oncológicas - nível 1,2,3,4. Depois, utilizando essa classificação, em 2020 foi publicada norma da Direcção-Geral da Saúde que estipula que, se houver um agravamento e aumento de casos, ter-se-á que dar preferência a determinadas cirurgias em relação a outras. As cirurgias muito prioritárias, até aos 15 dias, têm que ser realizadas, são as que colocam a vida do doente em risco imediato. Depois, temos as prioritárias e aqui entram dois níveis, as primeiras devem ser feitas até 45 dias e as outras até aos 60 dias. Ora isso já ultrapassa o período do despacho [que vigora até 31 de Janeiro]. Claro que, não havendo recursos, tem que haver prioridades, eu percebo isso. Mas estas cirurgias até aos 45 e 60 dias vão engrossar as listas de espera.

Mas estas cirurgias prioritárias incluem cancros de pulmão, pâncreas, esófago, estômago e tumores cerebrais. Estes doentes podem esperar?
As cirurgias que estão marcadas e desse tipo de patologias não devem ser adiadas, na minha opinião. Repare: já têm tempo de espera para trás, que está a contar. O tempo é dilatado, o que pode ter impacto [na sobrevida]. Se os hospitais não têm capacidade de resposta, isso só se pode resolver com a reorganização em rede dos serviços de saúde.

Os IPO (institutos de oncologia) têm capacidade para receber estes doentes, como afirma o Ministério da Saúde?
Penso sim, até porque os IPO têm tido uma diminuição das listas de espera para cirurgias porque os diagnósticos diminuíram desde o início da pandemia. Há menos doentes. Em oncologia médica os tratamentos mantiveram-se, não se fecharam os serviços nem os tratamentos aos doentes. Os doentes já diagnosticados continuaram o tratamento, o impacto sentiu-se foi nos novos casos, nos exames de diagnóstico. Ficaram por fazer TAC, mas sobretudo exames mais invasivos, como exames endoscópicos, quer digestivos quer respiratórios, endoscopias, colonoscopias, broncofibroscopias.  No final do ano estava-se a conseguir uma recuperação, mas agora estamos de novo numa situação complicada.