Portugueses em negação no novo confinamento: não é “uma surpresa”, garantem especialistas

“Todos nós temos razões para estarmos fartos e é perfeitamente normal que sintamos a vontade enorme de ir dar um passeio, mas para o bem de todos e de nós próprios, temos de fazer ainda mais um esforço”, apela o bastonário da Ordem dos Psicólogos.

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A psicóloga Teresa Espassandim destaca o sentimento de “frustração e desilusão” associado a este novo confinamento, em que “parecia que estava tudo melhor” com a “notícia da vacina que suscitou esperança”. Paulo Pimenta

Carruagens do metro cheias, filas nas paragens de autocarro, passeios higiénicos no paredão: este foi o cenário dos primeiros dias do segundo confinamento. Portugal é o segundo país do mundo com mais novos casos por milhão de habitantes (média móvel a sete dias, dados da Our World in Data, da Universidade de Oxford), ainda assim, nestes primeiros dias, só se verificou uma redução de 30% dos movimentos, avançou o primeiro-ministro. Por que não estão os portugueses a levar a sério as medidas impostas pelo Governo? São egoístas? Estão cansados? Estão em negação? Este comportamento não é “uma surpresa”, referem os psicólogos com quem o PÚBLICO falou e que defendem que “não adianta culpabilizar” ninguém.

“Há um acumular de cansaço, que resulta na fadiga pandémica e se conjuga com a fraca literacia em saúde”, assinala Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). “A fadiga da pandemia, a necessidade de sentir controlo sobre a situação, a falta de perspectiva de melhores dias nos negócios, a dificuldade em aceitar as nossas vulnerabilidades e a dificuldade em compreender porque temos de voltar a confinar são alguns factores que podem estar a contribuir para alguns comportamentos mais descuidados”, escreve a psicóloga clínica Vera Ramalho.

Existe um o sentimento de “frustração e desilusão” associado a este novo confinamento porque “parecia que estava tudo melhor”, sobretudo depois de se saber que tinha sido criada uma vacina, essa foi uma “notícia que suscitou esperança”, contextualiza a psicóloga Teresa Espassandim. Além disso, à vacina, somou-se o aligeirar de medidas pela época de Natal e Ano Novo, acrescentam os especialistas. “Saímos de um clima geral de notícias positiva”, realça o bastonário da OPP, logo, a informação positiva, “como está mais próxima daquilo que se quer”, é priorizada, “mesmo que não seja a mais relevante”, explica. 

A compreensão da dimensão do problema e o consequente “ajustar de comportamento” torna-se mais difícil “se do ponto de vista emocional” a pessoa “não estiver no seu melhor”, continua o psicólogo. “Passamos a decidir menos racionalmente, mais sujeitos a enviesamentos”, garante o especialista e conclui que é assim que se forma a “tempestade perfeita”.

As excepções e a desumanização da pandemia

É fácil encontrar um motivo para sair de casa ou uma excepção à regra. É que além da lista de excepções ser extensa, há também “uma vontade individual de se tentar enquadrar em cada excepção”, aponta Teresa Espassandim. No entanto, “sempre que a pessoa pensa mais nas excepções do que na regra, está a atrasar-se a si e aos outros”, lamenta. Contudo, a especialista acrescenta que embora pareça um comportamento egoísta, trata-se de uma atitude que “não é racional”, porque “é muito difícil estarmos sempre a pensar num colectivo com um esforço individual”. 

Este esforço individual é desgastante, reconhecem os especialistas. “Todos temos razões para estarmos fartos e é perfeitamente normal que sintamos uma vontade enorme de ir dar um passeio, mas para o bem de todos e de nós próprios, temos de fazer ainda mais um esforço”, apela o bastonário da OPP.

A anestesia face à realidade que muitos podem estar a sentir, ainda que inconscientemente, deve-se em parte, na opinião dos especialistas, a uma “desumanização da pandemia”. “Temos de admitir que se calhar fomos longe demais relativamente a esta preocupação com os números. Há o efeito psicológico de repetição e a informação deixa de ter o mesmo impacto”, justifica Francisco Miranda Rodrigues.

Por isso, Teresa Espassandim defende que não se pode “tornar os números distantes da vida das pessoas” porque “quando a vida e a morte se desumanizam, as pessoas também se afastam”. Para Vera Ramalho, “estamos perante um fenómeno social e emocional de habituação e de uma certa indiferença”, por isso, “não sendo um dos nossos, tudo não passa de um breve momento de tristeza que se desvanece ao mudar de canal”, retrata.

Os especialistas acreditam que o confinamento será mais eficaz se a “culpabilização for evitada”. Francisco Miranda Rodrigues garante que essa não é a melhor forma de mudar um comportamento. Teresa Espassandim sugere: “Focar mais no comportamento que se espera” com mensagens direccionadas a públicos específicos. O bastonário refere que “ninguém consegue superar a pandemia sozinho”. E remata: “Num contexto pandémico, o melhor para cada um de nós é sempre o melhor para os outros. Se não for o melhor para os outros, também não é para nós.”