Naomi Beckwith vai ser a primeira directora artística negra do Guggenheim

Curadora no Museu de Arte Contemporânea de Chicago durante uma década, assumirá funções no museu nova-iorquino em Junho, substituindo Nancy Spector, que se demitiu em Outubro sob acusações de racismo.

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Fotografia do Museu de Arte Contemporânea de Chicago

O museu Guggenheim de Nova Iorque, instalado no icónico edifício desenhado por Frank Lloyd Wright, anunciou a contratação de Naomi Beckwith como a sua nova directora artística e curadora principal. Aos 44 anos, Beckwith, que ao longo da última década foi curadora do Museu de Arte Contemporânea de Chicago, vai tornar-se a primeira negra a assumir estas funções no Guggenheim, substituindo uma veterana com 30 anos de casa, Nancy Spector, que se demitiu em Outubro, após um grupo de curadores da casa ter enviado uma carta à administração, em Junho de 2020, criticando o ambiente de trabalho do museu, que acusou de “promover o racismo, a supremacia branca e outras práticas discriminatórias”.

A experiência e competência de Beckwith serão “inestimáveis para promover e amplificar um conjunto de perspectivas inclusivas na colecção e na cultura do Guggenheim”, disse o director do museu, Richard Armstrong, afirmando ainda aguardar com expectativa o momento de trabalhar com a nova directora artística “no desenvolvimento de nova investigação e programação e na criação de formas poderosas e significativas de aprofundar o compromisso com a arte moderna e contemporânea”.

Naomi Beckwith vai ter a supervisão das colecções, exposições, publicações, programas curatoriais e arquivos, e Armstrong espera que a curadora proponha também uma “direcção estratégica” para o museu e traga “maior diversidade” às suas colecções e mostras.

Nunca descansar sobre os louros

No Museu de Arte Contemporânea de Chicago, Beckwith comissariou um grande número de exposições, incluindo, entre as mais recentes, uma retrospectiva da artista norte-americana Howardena Pindell, cujo trabalho aborda questões como o racismo, o feminismo ou a exploração. Inaugurada em 2018, a exposição itinerou depois por vários museus americanos. Mas quando se juntou à equipa do museu de Chicago, Naomi Beckwith já dera nas vistas como curadora associada no New York’s Studio Museum, no Harlem, onde promoveu exposições como 30 Seconds Off an Inch, uma grande mostra internacional multimédia que reuniu 42 artistas de diversas gerações e que se focou no modo como os artistas negros perspectivam as relações entre a arte e a vida.

“Não é possível sobrestimar a iconicidade e a consistência do Museu Guggenheim, e no entanto, recusando descansar sobre os louros, está pronto a acolher projectos que rompem com as mitologias da história da arte”, afirmou a nova directora artística, comentando o anúncio da sua contratação. “Estou entusiasmada por me juntar ao Guggenheim e à sua apaixonada equipa num momento crucial”, disse ainda Beckwith, para quem “é hoje claro que a função do museu não é apenas preservar a história da arte, mas preservar múltiplas histórias da arte”.

Com a escolha de uma prestigiada curadora negra para a vaga deixada pela saída de Nancy Spector, o museu nova-iorquino prossegue uma assumida estratégia de promover a diversidade quer nas equipas internas do Guggenheim, quer na sua oferta de programação ou na política de aquisições para a colecção.

A carta enviada em Junho de 2020 por um grupo de curadores, que se assinava A Better Guggenheim [Um Guggenheim Melhor], e que foi imediatamente seguida por uma outra, reunindo 220 assinaturas de antigos e actuais funcionários do museu, constituiu o principal detonador para acelerar as mudanças no museu.

Mas o momento decisivo ocorrera no segundo semestre de 2019, quando a curadora negra Chaédria LaBouvier, convidada pelo Guggenheim a comissariar a exposição Basquiat’s “Defacement”: The Untold Story, que tinha como peça central The Death of Michael Stewart, um libelo artístico de Jean-Michel Basquiat contra o racismo e a brutalidade policial, acusou Nancy Spector de a excluir de decisões essenciais e de assumir créditos alheios, tendo partilhado num tweet que fora “a experiência profissional mais racista” de toda a sua carreira.

O museu promoveu uma investigação independente que concluiu pela inexistência de atitudes racistas no âmbito da exposição comissariada por LaBouvier, mas o processo acabou por conduzir à saída de Nancy Spector, que tivera um pequeno momento de fama fora dos circuitos artísticos quando, em 2018, recusou o pedido de Donald Trump para que o Guggenheim lhe cedesse provisoriamente um Van Gogh, sugerindo-lhe, em alternativa, o “empréstimo a longo prazo” de uma sanita em ouro do artista italiano Maurizio Catellan.