A democracia depois de domingo

No domingo, não deixe que comecem a escrever uma nova Constituição contra si. Contra todos nós.

Ao contrário do que a provável reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa possa fazer parecer, estas eleições presidenciais não são simples rotina. Elas vão ficar para a nossa história, antes de mais, pelo recorde de abstenções, fenómeno para o qual contribuirão dois fatores centrais. Primeiro, esta tradição portuguesa de reeleger os presidentes em funções por cansaço: muitos dos que estariam disponíveis para votar em candidatos alternativos desistem de o fazer por achar que a reeleição são favas contadas; salvo no caso excecional da reeleição de Soares (1991), todos os presidentes foram reeleitos com menos votos do que aqueles que tiveram na eleição. Desta vez, contudo, mais sério vai ser o efeito do medo do contágio. Num país em que o recenseamento eleitoral atingiu o absurdo de registar mais eleitores que residentes, não admira que a abstenção em Portugal pareça bater recordes à escala internacional: mais de 1,5 milhões de recenseados emigraram e, se se registaram no exterior, estão duplamente nas listas, ou, se não o fizeram, aparecem como se continuassem a viver em Portugal – e a absterem-se. Em resumo, a abstenção é alta, mas muito mais baixa do que os números oficiais apontam.