A gaguez de Biden e como se tornou um exemplo para crianças e jovens gagos

Joe Biden ocupa esta quarta-feira a Casa Branca e, entre muitos desígnios, leva consigo uma missão: servir de exemplo a milhares de crianças e jovens gagos.

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Brayden Harrington foi estrela da convenção virtual que, em Agosto de 2020, formalizou a candidatura de Biden Democratic National Convention via REUTERS

Joe Biden recebe nesta quarta-feira as chaves da Casa Branca como uma espécie de herói da nação, depois de o ex-Presidente ter caído em desgraça a seguir à invasão do Capitólio pelos seus apoiantes. Nas vésperas da investidura, Biden reunia um nível de aprovação de 66%, acima do que apresentava por altura das eleições, enquanto Donald Trump sai pelas portas dos fundos, sem sequer passar o testemunho — uma acção sem precedentes na história do país.

E, entre os seus superpoderes, Biden traz a bandeira da gaguez — distúrbio que não o impediu de enveredar por uma carreira que requer o domínio da oralidade, tendo trabalhado para ultrapassar esse obstáculo; e continua a fazê-lo a cada discurso.

Joe Biden acena com a sua própria gaguez de mãos dadas com um “superpoder” — o de superação. E usa-a como exemplo disso mesmo, derrubando mitos: “Não tem nada a ver com o quociente de inteligência”, explicou, durante a campanha, o quase Presidente dos EUA à CNN, lembrando que “a gaguez (…) é a única desvantagem da qual as pessoas ainda se riem”.

Na mesma conversa, Biden usou o filme O Discurso do Rei, sobre como Jorge VI de Inglaterra teve de trabalhar para gerir a sua gaguez, para explicar o seu próprio método que passa por fazer pausas periódicas ao longo das suas dissertações, sem nunca se apressar.

Sobre o que o motivou, em criança, a ultrapassar esse obstáculo, Joe Biden destaca o trabalho da mãe que sempre reforçou a ideia de que não deveria ser a gaguez a defini-lo. “Joey, lembra-te de quem tu és. Joey, tu consegues”, lembrou o então ainda candidato à Casa Branca.

Da mesma maneira que a mãe o inspirou, Biden revela-se uma inspiração para muitas crianças e jovens. Foi o caso de Brayden Harrington, um rapaz de 13 anos que, depois de um rápido encontro com Biden em New Hampshire, em que o candidato à presidência disse ao adolescente que os dois eram “membros do mesmo clube”, sentiu a motivação necessária para trabalhar o seu discurso. É que Brayden revelou-se espantado por alguém com a mesma perturbação que ele ter chegado a vice-presidente dos Estados Unidos.

E os frutos não se fizeram esperar. Alguns meses depois, o jovem foi estrela da convenção virtual que, em Agosto de 2020, formalizou a candidatura de Biden. Num vídeo, que ainda hoje soma visualizações, Brayden Harrington declara: “Sem Joe Biden, não estaria a falar convosco hoje.” Depois, descreve o encontro e, diante de uma audiência de milhões, explica as técnicas que aprendeu com o democrata, incluindo ler em voz alta poemas do irlandês W.B. Yeats.

“Ter Joe Biden a falar publicamente é inspirador para qualquer pessoa que lide com a gaguez”, considerou, num artigo para a Universidade British Columbia, Carla Monteleone, terapeuta da fala da Faculdade de Medicina da Escola de Audiologia e Ciências da Fala, em Vancouver, Canadá. “É um excelente exemplo de como a gaguez, ou qualquer distúrbio da fala, não tem de ser algo impeditivo.”