No ensino online, as desigualdades vêem-se à distância

Nas escolas cumpridoras, o problema não está nas aulas presenciais. Está, sim, nos comportamentos individuais praticados fora delas. Mas disto, as escolas não têm culpa. Se mandarmos os alunos para casa, as diferenças começam a disparar.

Foto
LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Tornar o ensino online a regra seria tornar o ensino extremamente injusto. Enquanto este for presencial, garantimos que as aulas são verdadeiramente iguais para todos os alunos que as frequentam: as condições de conforto são iguais, a temperatura é igual, a tranquilidade do ambiente é igual. Se mandarmos os alunos para casa, as diferenças começam a disparar.

Nem todos os alunos têm um ambiente tranquilo em casa onde possam assistir às aulas ou estudar; nem todos os alunos têm casas bem acomodadas ou minimamente quentes onde possam estar confortáveis; outros não têm sequer uma divisão da casa onde possam estar sossegados e concentrados; e existem ainda aqueles que não têm bons equipamentos electrónicos ou um bom sinal de Internet que corresponda às necessidades que, no caso do ensino online, são básicas. Enquanto outros têm tudo isto e, certamente, terão melhor aproveitamento do que aqueles que não têm. Nenhum estudante deve ter o seu ensino em causa por não ter condições económicas, familiares e outras que não permitam um bom ensino à distância ou, como costumo dizer, quase autodidacta.

A tudo isto, e ao grande desafio que é por si só o ensino superior, podemos ainda adicionar a grande capacidade que o estudante (e o professor) tem que ter para aguentar estar tantas horas por dia em frente ao computador. Porque, se adicionarmos o tempo de aulas, o tempo de estudo e o tempo despendido para a realização de trabalhos, ultrapassamos, facilmente, o número de horas recomendado à frente de um ecrã.

Não devemos ainda esquecer que nem todos os cursos são exclusivamente teóricos. Existem imensos cursos em que as aulas práticas são fundamentais e não existe nenhum vídeo no YouTube que possa servir como substituto de um professor e de muitas horas de treino.

Certamente que existem muitas escolas onde ainda há, efectivamente, lacunas nas medidas de combate à pandemia e é crucial que em todas elas se cumpram rigorosamente as medidas que já sabemos serem eficazes. No entanto, também existem muitas escolas onde todas estas medidas são já aplicadas: existe apenas um aluno por carteira; as mesas estão devidamente separadas; existem, em todas as salas, produtos de limpeza e desinfecção à disposição de quem os queira usar; é feito o arejamento adequado das salas; há trajectos de circulação definidos; etc.

Nestas escolas cumpridoras, o problema não está nas aulas presenciais. Está, sim, nos comportamentos individuais praticados fora delas. Mas disto as escolas não têm culpa. E o ensino não pode (ou não devia) em circunstância alguma ser prejudicado.