Inquérito à população do Barroso chumba estratégia do lítio para a região

Questionário junto de 453 habitantes deu conta de que 91,4% discordam dos projectos mineiros que estão em análise para a região.

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Adriano Miranda

Dos 453 habitantes da região do Barroso que aceitaram responder às questões colocadas pelos responsáveis da página “Toda a Informação sobre o Lítio em Montalegre”, 91,4% manifestaram a sua discordância com a estratégia de exploração de recursos naquela área.

Esta é a informação veiculada num comunicado dos responsáveis da página, que referem ter decidido avançar com esta auscultação depois de ouvirem o presidente da Savannah, David Archer, a afirmar num webinar que o projecto, e a empresa, tinham sido “muito bem recebidos pela população local”. “A população está na expectativa da criação de empregos e está entusiasmada com as perspectivas de crescimento económico proporcionado pela mina do Barroso”, afirmou o presidente da Savannah num webinar organizado no passado dia 15 de Dezembro, a que o PÚBLICO também assistiu.

Os autores da página informativa avançaram para a auscultação local, organizando um inquérito que decorreu entre os dias 2 e 17 de Janeiro, e contou com a participação de 453 barrosões. No comunicado, os autores referem que a amostra é representativa da população local, mas não referem como é que a auscultação foi feita ou como definiram a amostra. Apenas descriminam o sexo e a idade dos respondentes, sem dizer se são munícipes de Montalegre ou de Boticas. No último censos, realizado em 2011, o concelho de Boticas tinha 5750 habitantes e o de Montalegre 10.537 habitantes.

De acordo com os autores do inquérito, 91,4% dos 453 inquiridos manifestaram o seu desacordo com a estratégia do lítio nos concelhos de Montalegre e Boticas.

Os motivos foram variados e estão explanados no comunicado: 38% dos inquiridos não querem um futuro industrial para a região. “O lema do Barroso tem que permanecer ‘uma ideia da Natureza'”. Os respondentes dizem que o desenvolvimento da região “tem que passar pelo turismo (Parque Nacional da Peneda-Gerês, barragem do Alto Rabagão, organização de eventos culturais…) e por investimentos numa economia rural e sustentável (agricultura biológica…)”, lê-se no comunicado.  

Para 27% da população questionada, a indústria mineira representa uma “ameaça importante para a biodiversidade, o equilíbrio do ecossistema, a preservação paisagística e a qualidade da água”. Já 16% dos inquiridos “desconfiam das intenções das empresas e da capacidade das instituições portuguesas e europeias em proteger os interesses da região” e referem que “os benefícios para as populações locais serão insignificantes ou negativos (poucos empregos, pouca fixação de população, desvalorização do património).

Finalmente, 10% dos participantes pensam “que a exploração mineira irá danificar a saúde e a qualidade de vida das populações locais, devido principalmente à proximidade da mina e da zona industrial com as habitações”.

O comunicado termina com a afirmação de que os inquiridos concordaram em dizer “que a população não tem sido ouvida com atenção nem envolvida nas decisões” e “que uma consulta pública local poderá ajudar a criar um clima de confiança”.

No caso da Mina do Barroso, em Boticas, a Savannah entregou o processo à Agência Portuguesa do Ambiente, a entidade responsável pela avaliação ambiental do projecto, e que terá de levar a consulta pública antes de se decidir pela declaração de conformidade, ou não, do projecto.