Sondagem dá vitória aos socialistas e põe em risco a maioria independentista na Catalunha

Escolha do ministro da Saúde de Espanha para cabeça-de-lista faz disparar o PSC. Vox supera PP, Cidadãos afunda-se e há possibilidade de uma maioria de esquerda no parlamento catalão. Tribunal mantém eleição a 14 de Fevereiro, de forma cautelar.

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Salvador Illa, ministro da Saúde do Governo de Espanha MARTA PEREZ/EPA

Em Espanha já se fala num “efeito Illa”. A primeira sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS) sobre as eleições legislativas catalãs desde que o ministro da Saúde do Governo de Espanha, Salvador Illa, foi anunciado, em Dezembro, como seu cabeça-de-lista, atribui a vitória ao Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC). 

Segundo o inquérito, publicado nesta quinta-feira, o partido “irmão” do Partido Socialista e Operário Espanhol (PSOE), do presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, venceria as eleições com 23,9% dos votos, equivalentes a uma representação parlamentar entre os 30 e os 35 deputados – actualmente o PSC tem 17 deputados e é apenas a quarta força na assembleia legislativa da Catalunha.

Com 22% das intenções de voto, Illa, que tem estado muito presente no espaço mediático, naturalmente, por causa do combate à covid-19, é também o candidato preferido dos participantes na sondagem para assumir o cargo de presidente do governo catalão.

O acto eleitoral tinha sido adiado para 30 de Maio, por causa da pandemia, mas o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha suspendeu esse adiamento, após receber uma contestação à decisão da Generalitat e dos partidos. 

Esta quinta-feira o tribunal confirmou mesmo que se manterá, de forma cautelar, a data original: 14 de Fevereiro. Daqui a menos de um mês, portanto. Ainda assim, promete uma sentença definitiva “até ao dia 8 de Fevereiro”.

A sondagem sugere ainda que os partidos independentistas catalães podem falhar a renovação da maioria no parlament, uma vez que, juntos, Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Juntos pela Catalunha (Junts) e a Candidatura da Unidade Popular (CUP) ficam-se apenas pelos 40% das intenções de voto, e só no melhor cenário é que poderão superar os 68 deputados necessários para a maioria absoluta.

Batalha e (ou) união à esquerda?

De acordo com o CIS, apenas a ERC estará em condições de disputar a vitória eleitoral com o PSC, já que aponta aos 20,6% dos votos (31-33 deputados).

Na terceira posição está o Junts, o partido do ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, que rompeu com o Partido Democrata Europeu Catalão (PdeCat) – que por sua vez, falharia a representação parlamentar –, que surge no estudo com 12,5% (20-27 deputados) dos apoios calculados.

A maior queda eleitoral poderá ser do Cidadãos. O partido de Inés Arrimadas, que venceu as eleições em 2017, e que ainda é, com 36 deputados, o partido mais representando no parlamento, junta 9,6% dos votos, equivalente a apenas 13, 14 ou 15 parlamentares, e está em empate técnico com o En Comú Podem – partido que integra a coligação Unidas Podemos, de Pablo Iglesias.

Um dos principais beneficiários do descalabro do partido liberal parece ser o Vox. O partido de extrema-direita pode eleger entre 6 a 10 deputados, superando o Partido Popular Catalão (PPC) – partido “irmão” do PP, de Pablo Casado –, que, por seu lado, pode ficar-se pelos 7 deputados.

As contas da sondagem do CIS concluem-se com os seis por cento de intenções de voto na CUP e a eleição de 8 a 11 deputados.

Se a maioria dos partidos independentistas, que sustentam o actual govern, liderado por Quim Torra, poderá desfazer-se nas próximas eleições, há um cenário em cima da mesa que o PSC e o próprio Pedro Sánchez poderão querer explorar: a possibilidade de uma maioria de esquerda no parlamento catalão, com 80 deputados previstos no melhor cenário e 68 no pior.

A ERC tem sido muito criticada dentro do universo secessionista catalão pelo apoio que tem dado, a nível nacional, ao Governo de coligação PSOE-Unidas Podemos – não só na investidura mas, particularmente, na aprovação do último Orçamento de Estado –, mas isso não significa que quererá entrar numa solução de governo com o PSC e o En Comú Podem, já que tem sido protagonista, há vários anos, da luta pela independência da região autonómica.

“Ministro” condenado

A Catalunha foi ainda notícia esta quinta-feira por causa de uma outra decisão do Tribunal Superior de Justiça, envolvendo o conseller da Acção Externa da Catalunha – cargo semelhante ao de um ministro dos Negócios Estrangeiros.

O tribunal condenou Bernat Solé a um ano de inabilitação e a uma multa de 16.800 euros, por crime de desobediência, relacionado com a sua participação nos preparativos para o referendo independentista de Outubro de 2017, quando era presidente da câmara de Agramunt.

Segundo o tribunal, Solé participou, como orador, e autorizou a realização de um “acto público, ou conferência, destinado a promover a participação cidadã no referendo ilegal”, a 25 de Setembro de 2017, num espaço público, gerido pela câmara.

Para além disso, lê-se na resolução judicial, citada pelo La Vanguardia, teve “uma participação activa e decidida” no dia do referendo, “ao ponto de esconder num lugar seguro as urnas com os votos depositados no seu interior e documentação comprometedora relacionada com a votação”.

O conseller poderá, ainda assim, manter-se no cargo, enquanto espera a decisão final do Supremo Tribunal. A imprensa espanhola diverge, no entanto, sobre a possibilidade de se poder candidatar, pela ERC, às legislativas catalãs.

Através de uma nota enviada à comunicação social pela delegação da Acção Externa da Catalunha em Lisboa, o governo catalão expressou o seu apoio a Bernat Solé e acusou o “Estado espanhol” de “repressão”.

“Hoje temos uma nova prova que a repressão do Estado espanhol contra o independentismo não cessa”, lamentou o vice-presidente do govern, Pere Aragonès. “[Solé é] uma vítima da causa geral contra o independentismo iniciada contra os membros do anterior Governo, e que continua aberta”.