Um debate antecipado

Não compreendo que se tenha responsabilizando o líder e a direção do PS de terem, mesmo que involuntariamente, facilitado a ascensão da extrema-direita em Portugal. Em coerência, se é isso que PNS pensa, não deveria pactuar em partilhar, tanto no PS como no Governo, um lugar ao lado de “tamanhos irresponsáveis”.

Li com atenção o texto de Pedro Nuno dos Santos (PNS), no PÚBLICO. Antes de o comentar, devo começar por fazer uma declaração justificada pela inoportuna, injusta e deselegante afirmação de PNS responsabilizando António Costa (AC) e companheiros de direção e de Governo de serem uma espécie de “abre latas” da extrema-direita em Portugal.

Ainda antes de PNS ter nascido para a política, já António Costa era um homem de esquerda, com provas dadas de dedicação ao PS. Aliás, este Governo que PNS integra, teve origem na determinação de AC em garantir apoios com essa esquerda que PNS se propõe, direi com alguma ingenuidade, “federar”. Só não foi pioneiro na ideia de abertura à esquerda porque, nos anos 80 do século passado, já João Soares o havia sugerido.

 Infelizmente, o PS não se preocupou em transmitir às novas gerações de aderentes a sua história, forjada numa constante e permanente luta pelas liberdades políticas, antes e depois do 25 de Abril. Esse passado “moldou” o que somos, formatou o nosso ADN político: um partido amante da liberdade, de esquerda, socialista ou social-democrata (Mário Soares dizia que eram a mesma coisa), com raízes “marxistas não leninistas, republicanas, cooperativistas e católico-progressistas”. Este desconhecimento da história do PS explica parte dos “esquerdismos” manifestados por alguns socialistas, certamente bem-intencionados …. Mas esta incompreensão sobre a natureza do PS, pode, futuramente, vir a custar caro. 

O PS é o que é porque liderou a seguir à Revolução de Abril uma luta muito dura que impediu a consagração de uma “ditadura do proletariado ou popular”. Nesse combate forjou-se como o partido da Liberdade, que, como disse Mário Soares, é o primeiro valor acima de todos os outros. Foi um combate clarificador sobre o modelo político de sociedade para o país. Convém sempre lembrarmo-nos disto, antes de começarmos a julgar a “intensidade ou sensibilidade de esquerda” de cada um. Quem entrar agora para o PS, herda - e por isso deveria conhecer bem - o nosso passado e os valores pelos quais nos afirmámos.

Posto isto, reconheço ao PNS grande qualidade política e não tenho pejo nenhum em considerá-lo como um importante ativo do partido. Acho interessante o que escreveu, sobretudo porque o seu texto interpretativo das eleições presidenciais permite um bom debate de ideias e reflexões plurais sobre o nosso futuro político.

A Constituição da República confere – e bem – aos partidos políticos um papel central de condução da vida política do país. Tanto a Assembleia da República, como o próprio Poder Local foram “desenhados” de forma a permitir uma afirmação dos partidos políticos de um modo muito impressivo, porventura porque durante quase 50 anos eles foram proibidos e perseguidos. Porém, a Constituição veda aos partidos a apresentação de candidaturas a Presidente da República. A explicação é natural: o papel do PR é o de árbitro, de garante da Constituição, cabendo ao Governo – emanado de eleições onde só os partidos podem concorrer – a missão de governar e, se forem ousados, transformarem o país. Isto é, em Portugal, quem entender ser necessário alterar políticas, estabelecer novos rumos, procurar mais justiça social, defender os trabalhadores, enfim, lutar pelos seus ideais, deve procurar alcançar o Governo. Não se percebe assim a dramatização colocada por alguns pelo facto de o PS, desta vez, não ter apoiado nenhum candidato. Escolher um PR não é a mesma coisa do que escolher um Governo. Escolher um PR é escolher quem representa Portugal na sua máxima expressão e quem nos dará mais garantias de equilibrar “emocionalmente” a nossa comunidade nacional. Já tivemos Mário Soares apoiado formalmente pelo PSD, e não deixou de ser de esquerda por causa disso. Já tivemos dois candidatos oficialmente apoiados pelo PS que tiveram oposição a partir de dentro (Soares e Alegre; Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém) e não foi drama nenhum. O partido reagiu com normalidade. Pessoalmente, compreendi a candidatura de Ana Gomes e não percebi todo o “histerismo” provocado pelo facto de o PS não ter oficialmente um candidato ou, de parte do PS – nos quais me incluí – achar que o atual Presidente servia bem os interesses do país e era útil para a concretização da agenda reformista do Governo de António Costa e do PS.

 Os resultados dão razão à estratégia do PS e, pelos vistos, essa estratégia esteve em consonância com, pelo menos metade do eleitorado socialista, que a par do voto significativo em Marcelo, ainda se espalhou, não só por AG, mas também por João Ferreira e Marisa Matias. É um erro desvalorizar o que poderá pensar ou desejar o “nosso” eleitorado. Poderá mesmo significar que não percebemos “as massas”, para utilizar um “jargão” caro a alguns sectores da esquerda. Apesar de eu não defender um seguidismo face ao que “o povo pensa”, julgo que acreditar que somos uma “vanguarda” de uma qualquer classe social pode representar também algum radicalismo “pequeno-burguês”, historicamente propiciador de maus resultados.

Mas o grande ou principal argumento de PNS para se indignar com a não-designação de Ana Gomes como candidata oficial reside no facto de que agora existe uma extrema-direita ativa e perigosa, personalizada por André Ventura, precisamente porque arregimenta para si os desiludidos com o sistema. Se bem percebi, esse apoio permitiria espaço à direita democrática, que mediante o combate ideológico com a esquerda, afastaria do “espetro das alternativas” a direita antidemocrática. Não digo que discorde, se estivéssemos a disputar legislativas. As opções de voto estão sempre condicionadas pelas ideologias e crenças e pelas circunstâncias concretas de cada momento. Se porventura estas presidenciais fossem uma disputa entre AG e Ventura, a AG teria “mil vezes” o meu voto.

Os fatores que atraem um número significativo de pessoas para o “antissistema” são, como diz PNS, embora um pouco contraditoriamente com o que sustenta em paralelo ser o debate ideológico, os fatores que influenciam a qualidade de vida das pessoas, o sentimento de injustiça ou de marginalização de muitos face a problemas concretos que os afligem. E aí, por exemplo, o governo socialista e o ministro PNS têm certamente muito a fazer e a demonstrar, por exemplo no domínio constitucional da Habitação. Sem que, até agora, se vejam grandes (ou sequer pequenos…) resultados da sua ação. Mais do que palavras, por muito bonitas e sedutoras, são precisas ações e resultados!

Porque a verdade é que as pessoas só se preocupam ou valorizam as ideologias depois de terem a sua vida estabilizada de um modo minimamente digno. Até lá estão muito ocupadas em procurar sobreviver.

As pessoas estão desiludidas com a perceção que têm das desigualdades, com as dificuldades diárias de vária ordem, com a sensação que a Justiça não é igual para todos, com a insegurança, com os transportes, enfim, com um conjunto de problemas concretos que os confrontam quotidianamente. Estão preocupadas com o emprego e o desemprego, agora crescente. As pessoas têm a perceção que existe uma casta dirigente que só se protege a ela própria, que só se preocupa com os seus amigos e é isso que, caldeado com as dificuldades que estamos a atravessar, as atira para os “braços” do populismo e da direita radical. Mas, não se combate o populismo de direita com outro de sinal contrário. Combate-se resolvendo problemas. Fazendo reformas que induzam a uma mais justa (ou menos injusta) distribuição da riqueza. E para isso o PS tem de continuar no poder, como depreciativamente é insinuado no texto? Sim, porque estamos lá para exercer o poder no sentido de um Portugal mais justo e inclusivo.

É por isso que António Costa tem dito – e bem - que o PS preferencialmente só fará alianças “à esquerda”. Porque temos uma identificação comum: mais justiça social e um melhor Estado social. Estamos a falar de Governos e de poder, sim. Não estamos a falar de organização política do Estado. Essa está, desde há muito, bem consolidada. Somos uma República de democracia liberal, de pluralismo político e com uma forma de governo semipresidencial, que tanto rejeita as ditaduras fascistas, como as pretensas “democracias” da Coreia do Norte ou da Venezuela. Talvez seja essa uma das razões que explique o apoio essencial que o PS tem tido ao centro, sem nunca perder o apoio dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos. As pessoas confiam no PS porque, sendo de esquerda, é reformista e abrangente.

 Não compreendo, pois, senão à luz da antecipação de um debate - certamente interessante - sobre a substituição de António Costa na liderança do PS, que se tenha insinuado, responsabilizando o líder e a direção do PS de terem, mesmo que involuntariamente, facilitado a ascensão da extrema-direita em Portugal. Em coerência, se é isso que PNS pensa, não deveria pactuar em partilhar, tanto no PS como no Governo, um lugar ao lado de “tamanhos irresponsáveis”.