Os velhos tornam-se moços de recados seniores

A velhice tem um padrão no que diz respeito à recordação – a desordem só acontece com os factos mais recentes, porque os mais antigos ficam bem armazenados na cachimónia. Alguns deles, aliás, perfeitamente dispensáveis; quem me dera que fossem raspados da lembrança.

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Mykyta Martynenk/Unsplash

Quando alguém nos manda executar uma tarefa, espera que anotemos mentalmente a informação e que a façamos tal qual nos foi indicada. Assim acontece com as incumbências, os recados. Se alguém nos diz: “Preciso que vá comprar cinco resmas de papel branco, umas sete recargas para os agrafadores, uma série de maços de envelopes casca de ovo, sacos e pacotes de café para a máquina e”, baixando a voz, “um pacote de pensos de senhora, por favor. Tanto faz a marca, desde que tenham abas. Memorizou tudo?”, é suposto não falharmos.

Se tivermos mais de 70 anos e trabalharmos há várias décadas na mesma empresa, e nunca tivermos tido outra função que não abrir e aferrolhar portas, e dar conta de quem entra e sai do edifício, talvez isto signifique que nos tornámos o moço de recados sénior. A principal incompatibilidade com esta função neste estádio da vida reside na minha memória cada vez mais debilitada e na crescente incompetência da força braçal. É que, infelizmente, e com o passar do tempo, vamos misturando na cabeça a informação que nos entregam, e afrouxando as costas ao peso mínimo dos sacos de compras. A velhice tem um padrão no que diz respeito à recordação – a desordem só acontece com os factos mais recentes, porque os mais antigos ficam bem armazenados na cachimónia. Alguns deles, aliás, perfeitamente dispensáveis; quem me dera que fossem raspados da lembrança.

No que respeita à perda da força braçal, a palavra que me ocorre em várias situações é, de facto, lamentável. Quando nos desequilibramos no passeio por não sermos capazes de transportar meia dúzia de batatas, voltamos a sentir-nos como crianças que precisam da ajuda da mãe para levar a mochila; transportar uma bilha de gás, por exemplo — coisa que fizemos a vida inteira e que parecia canja — torna-se tarefa hercúlea. Aos velhos estas mudanças custam, fazem-nos sentir uns incapacitados, uns fracos.

Por isso, sempre que oiço que o importante é que a cabeça esteja bem, preocupo-me. A minha cabeça nunca foi grande espingarda, como se costuma dizer, e agora, com o avançar da idade, tem piorado bastante e, não raras vezes, deixa-me ficar mal. E não é só no trabalho. No outro dia, a minha mulher zangou-se a sério comigo. Esqueci-me da data de aniversário do nosso rapaz. Tenho noção de que foi uma coisa grave e que a magoou, mas podia ter-me atenuado a pena (deixou de me falar durante mais de duas semanas), já que não tenho culpa da memória me começar a falhar. Foi o primeiro ano em que isto me aconteceu. A minha patroazinha, em vez de se zangar, devia ter-se preocupado com a minha falta de saúde.

É que nos últimos tempos tenho andado a sentir-me cansado e um pouco confuso. Começo a errar nas tarefas da casa e com a família, e nos recados da empresa. Às vezes troco as quantidades dos pedidos e esqueci-me que os tais pensos higiénicos que me foram pedidos tinham de ter alças, ou lá o que é. A chefe sugeriu-me que começasse a usar um bloco de notas, mas recusei determinantemente. Sempre dei conta de tudo, não é fácil aceitar que começo a falhar e que nem para moço de recados sirvo. Mesmo que sénior, como se diz agora. É que um homem ainda tem a sua dignidade.