Património aprovou a requalificação do chalet do Jardim da Estrela mas sem “desmonte integral”

Obra para transformar antiga creche do jardim da Estrela numa biblioteca do ambiente arrancou com a demolição integral da estrutura centenária, o que motivou críticas. Câmara justifica decisão com mau estado dos materiais.

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A Direcção-Geral do Património Cultural aprovou, em Dezembro de 2017, a reabilitação do edifício da antiga creche do Jardim da Estrela, mas sem que este fosse totalmente desmantelado, o que acabou por acontecer na semana passada.

O parecer de “aprovação condicionada”, assinado pelo então subdirector-geral David Santos, previa que a intervenção da Câmara de Lisboa na reabilitação deste edifício do final do século XIX adoptasse uma metodologia que não implicasse “o desmonte integral do edifício”. Também a memória descritiva do projecto referia que a intervenção se deveria enquadrar numa operação de “conservação e restauro” de modo a que, sempre que possível, se mantivesse e aproveitasse os elementos estruturais existentes.

Todavia, até ao sábado passado, a câmara procedeu à demolição integral do edifício da antiga creche, espoletando a contestação da população nas redes sociais, incluindo a do movimento Fórum Cidadania Lx. Perante a contestação, a Câmara de Lisboa publicou um comunicado, no domingo, em que justifica a demolição com “a humidade e infestação por térmitas” de grande parte da madeira que dava forma a este edifício.

Em resposta ao PÚBLICO, a Câmara de Lisboa apoia-se num relatório da empresa Spy Building, de inspecção e diagnóstico das patologias, com data de 8 de Abril de 2016, que nota que “78% da totalidade dos pilares exteriores encontram-se degradados" assim como “17% da totalidade dos pilares interiores”.

“Ora, um edifício com 75% dos pilares exteriores e 17% dos interiores degradados e com ataques de térmitas corre grave risco de colapsar e foi essa constatação que levou a que no projecto se considerasse que todos os pilares exteriores deveriam ser substituídos e cerca de 50% dos pilares interiores”, explica a autarquia, considerando ser “impossível reabilitar integralmente um edifício que tem a maior parte dos elementos estruturais que o sustêm degradados sem os substituir”.

Contudo, um relatório preliminar de ensaios e levantamento estrutural feito ao chalet pela mesma empresa, datado exactamente do mesmo dia, que circulou nas redes sociais e foi enviado ao PÚBLICO pelo grupo de munícipes Vizinhos da Estrela, refere que “a madeira da generalidade dos pilares ensaiados [duas salas], apresentava-se sã”. Esta avaliação refere-se às observações feitas “a partir da cota de 60 a 70 cm até ao topo do pilar​”, não incluindo assim as fundações. 

A autarquia sublinha que, porém, “foi possível desmontar partes inteiras e emblemáticas do edifício, sendo que estas peças, devidamente registadas e inventariadas, foram recolhidas para a oficina do carpinteiro subcontratado, onde serão alvo de operação de restauro para posterior utilização na reconstrução do edifício”.

A requalificação da antiga escola Froebel, a primeira creche do país, “obedecerá, e respeitará a concepção original do edifício tanto nos materiais como no seu interior e nas fachadas”, garantiu o município.

Ainda assim, o Fórum Cidadania Lx, que se dedica à defesa do património arquitectónico, histórico e imaterial da capital, teme estar perante “uma obra que privilegia o ‘pastiche’, rápido e menos oneroso, o que sendo numa obra da Câmara Municipal de Lisboa, em património histórico, é de rejeitar liminarmente”.

Os trabalhos para a reconstrução do edifício, que albergará uma biblioteca do ambiente, durarão seis meses e custarão ao município cerca de 1,15 milhões de euros.

O chalet, desde a origem destinado a jardim-de-infância, foi concebido para aplicar e desenvolver no país o modelo de educação infantil do pedagogo alemão Friedrich Froebel, que veio estabelecer a base do actual ensino pré-escolar, no final do século XIX.

Com projecto de José Luís Monteiro e Duarte Simões, foi construído no chamado Passeio da Estrela, em Lisboa, dentro do perímetro do jardim, e acolheu as primeiras classes de alunos em 1882.

A escola manteve-se em funcionamento, durante cerca de 120 anos, recebendo crianças entre os três meses e os três anos de idade.

Texto editado por Ana Fernandes