Dias de desconsolo

Não há nada pior do que uma pessoa se sentir mal-amada. É tão pior do que a solidão. Discussões, o silêncio que se segue – é isto a nossa vida, e do amor não vejo quase nada.

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Uma discussão ao pequeno-almoço, outra ao final da tarde e outra pela noite dentro. Estou exausta. Não consigo lidar com o teu narcisismo, que se sobrepõe a tudo o que de realmente importante podia acontecer nas nossas vidas. E não acontece por causa da tua vaidade exacerbada, do teu ego que enche todas as divisões da casa e me coloca na despensa, ao lado da pá e da vassoura.

É asfixiante. Não vejo melhoras na nossa relação. Os nossos planos são sempre de papel, e a meteorologia anuncia chuva torrencial para os próximos meses, se não anos. Vão ensopar num instante, esborratar a tinta toda e rasgar-se com a maior das facilidades. Já escrevi isto muitas vezes, mas nunca é demais repetir: as metáforas são uma merda. Agarram-se aos dedos como lapas (as comparações também são uma merda, já agora) e tentam ser profundas e ambíguas e representativas, mas são mesmo só uma merda. As metáforas só servem os escritores e as escritoras que não têm genitália para dizer o que realmente querem, ou que simplesmente não são capazes.

Eu quero ser capaz de sair da mediocridade em que me sinto tantas vezes. Nos textos, ao espelho, na maneira como dou aulas ou cuido da minha filha, ou até como me sai a comida, queimada, insossa, desenxabida. Há dias assim, uma pessoa sente-se medíocre por causa das opções que fez e que faz na vida, e das merdas que atura. Ainda assim, prefiro ser medíocre sem metáforas, a esconder-me em imagens bonitas. Por isso, e voltando ao início do texto: uma discussão ao pequeno-almoço, outra ao final da tarde e outra pela noite dentro.

Estou exausta. Dou voltas à cabeça e não consigo desculpar-te. Já não sou nenhuma menina, não me consigo enganar. A minha experiência diz-me que vais tornar a repeti-lo. Juras a pés juntos que não, que nunca mais volta a acontecer, prometes com lágrimas de animal de sangue frio aquilo que não és capaz de dar. Eu sei que acreditas que vais ser capaz, mas eu tenho praticamente a certeza de que não. O que me lixa é o sacana do advérbio de modo; quem me dera ter a certeza absoluta. Podes crer que nunca mais me vias, que desaparecia definitivamente da tua vida. Aquilo que fizeste foi tão mau ou pior do que uma traição. Foi desrespeitador, humilhante, feio e tão medíocre. Tenho dificuldade em lidar com a tua mediocridade, já me basta a minha. Não sei como é que vamos conseguir resolver isto.

Olho para ti e sei que te amo, mas não amo a mulher que sente isto por ti. Não amo a mulher que te está a tentar perdoar. A mulher que sou devia dar-te com os pés sem piedade, pôr-te um par de patins e dar-te uma palmadinha nas costas para dar balanço à descida. Não é suposto o amor fazer-nos sentir mal. O amor não é isto, embora tu digas que sim. Isto parece o jogo das cadeiras, dois concorrentes e só um lugar para sentar. E eu sinto que o queres só para ti; eu que ponha a música a tocar e que ande feita parva às voltas do lugar.

Não há nada pior do que uma pessoa se sentir mal-amada. É tão pior do que a solidão. Discussões, o silêncio que se segue – é isto a nossa vida, e do amor não vejo quase nada. Parece um horizonte inatingível, como quando se olha para a linha do mar. Vemo-lo ao longe, mas está-nos sempre a fugir. Por isso, quando digo que não serves, que aquilo que me dás nestes momentos é fraco, fico espantada com a tua surdez. Nada ameaça o teu narcisismo. Continuas a acreditar que ninguém deixará de te amar. Isso nem sequer te passa pela cabeça. Achas que as mulheres que te amaram continuam súbditas do teu charme. E eu garanto-te que não, e aqui só posso falar por mim.

O meu amor mingua, e não é a primeira vez que isto me acontece. Mingua até se tornar uma migalha imperceptível, e sim, não seria a primeira vez na vida que deixo de amar um energúmeno. Acredita que gostava que tivesse sido uma experiência única. É que é das coisas mais tristes que podem acontecer a uma pessoa. E aqui recorro à mediocridade — talvez nunca de lá tenha saído, é o mais certo —, mas que serve bem aquilo que eu sinto: deixar de amar uma pessoa é a mais bizarra sentença de morte. É a única vez em que vemos os mortos, como nos filmes do Romero, a andarem por aí.