Ria Formosa, uma “fábrica” a absorver 2600 toneladas de carbono por ano

As pradarias e sapais da ria Formosa representam cerca de 30% do volume de carbono azul que está sequestrado pelos ecossistemas marinhos em Portugal. As salinas são o novo campo de investigação da Universidade do Algarve.

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Nos ecossistemas marinhos – como sapais e ervas marinhas – pode residir a “bazuca” ambiental de que Portugal dispõe, e não está a contabilizar, para competir no combate pela mitigação aos efeitos das alterações climáticas. Só na ria Formosa, um estudo do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve estima que exista um stock de 200 mil toneladas de carbono capturado – cerca de 30% dos valores armazenados nos principais ecossistemas costeiros do país. As salinas, outra das fontes de retenção dos gases com efeito de estufa, começaram agora a ser estudadas pelo CCMAR. Os resultados preliminares são, para já, promissores.

A equipa coordenada pelo biólogo Rui Santos – após ter concluído um estudo de três anos sobre a avaliação do carbono azul retido pelas ervas marinhas e sapais da ria Formosa – lançou-se, com o mesmo objectivo, para a zona das salinas. “Vamos medir os fluxos de carbono”, foi este o ponto de partida da primeira experiência. Os registos, obtidos através de uma câmara, com o apoio de uma bóia flutuante, foram considerados animadores. “Ganhos positivos”, comentou o cientista, fazendo o balanço às quantidades de CO2 que entram e saem das águas. “Temos ainda de perceber bem o que se passa, pois esta é a primeira experiência”, advertiu. Estamos muito surpreendidos, porque a captura de carbono é muito maior do que estávamos à espera”, comentou, por seu lado, a investigadora Ana Alexandre.

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O grupo de investigação promete regressar, com novos testes – e resultados mais concretos – lá mais para o Verão, quando as salinas estiverem em plena produção.

A operação começou de madrugada. “Pelas 6h, já cá estávamos”, nas salinas da Necton, em Olhão. Os flamingos e os perna-longas chegaram quase ao mesmo tempo, na busca de peixe para o pequeno-almoço. A estudante de mestrado Saray Perez sai da água para registar a cena das aves à pesca. “Está a contar os pássaros, porque é também importante conhecer o ecossistema nas suas múltiplas funções”, explica Rui Santos, coordenador do grupo ALGAE – Ecologia de Plantas Marinhas do CCMAR e um dos elementos de uma equipa mundial de mais de 30 especialistas (liderada por Peter Macreadie, da Universidade Deakin, na Austrália) que procuram encontrar nos ecossistemas marinhos a “solução natural” para reduzir os efeitos das alterações climáticas.

Integrada no mesmo grupo de investigação, Carmen de los Santos recolhe amostras de sedimentos num tubo de 4,5 centímetros de diâmetro e meio metro de comprimento. Através das lamas, que vão seguir para laboratório, haverá de se contar, lá para o final do ano, a história daquela parcela da ria Formosa onde se produz a flor de sal e microalgas.

Embora os ecossistemas marinhos ocupem apenas 0,2% da superfície do oceano, diz Rui Santos, “contribuem com um sequestro anual de CO2 que é de cerca de 40 vezes superior ao das florestas tropicais, boreais ou temperadas”.

As pradarias marinhas podem entrar na estratégia nacional para reduzir os gases de efeito de estufa? Essa é questão que ainda não faz parte da agenda política, mas a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) diz que já foi dado o primeiro passo nesse sentido, segundo noticiou o PÚBLICO no início de Fevereiro. O objectivo é que Portugal venha a ser um dos primeiros países a quantificar os fluxos de carbono armazenado nos sistemas marinhos da sua costa.

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Segundo o estudo desenvolvido por Rui Santos e Carmen de los Santos, o sequestro de carbono na ria Formosa – com área de 13.900 hectares de ervas marinhas e sapais – é de 2600 toneladas por ano. A partir deste dado, os cientistas acham que está a passar por aqui um “novo mundo” que se projecta para alcançar a neutralidade carbónica em 2050, desde que seja valorizada e preservada a biodiversidade e os ecossistemas marinhos.

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Em Portugal, segundo uma recomendação entregue ao Governo pela organização não-governamental Ocean Alive, haverá 14 mil hectares de pradarias marinhas e sapal, que são responsáveis pelo sequestro de 17 mil toneladas de C02 por ano e se distribuem pelas zonas de Aveiro, Mondego, Óbidos, estuário do Tejo, estuário do Sado, lagoa de Santo André, Mira, ria de Alvor, Arade, Castro Marim e ria Formosa.