Uma tradução branca para a poesia de uma autora negra: a polémica holandesa de Amanda Gorman

Poeta-fenómeno da tomada de posse de Joe Biden, Amanda Gorman deu o seu aval à tradução por Marieke Lucas Rijneveld nos Países Baixos. Redes sociais e jornais inflamaram-se e Rijneveld, nome premiado e pessoa branca, retirou-se.

Foto
Amanda Gorman na tomada de posse de Joe Biden Reuters/POOL

Amanda Gorman é a poeta que “captou o momento”, que “uniu o mundo”, que leu o seu The Hill We Climb na tomada de posse do Presidente dos EUA Joe Biden e que num ápice se tornou num nome reconhecido em grande parte do mundo — o seu poema, uma invectiva à união escrita na primeira pessoa, é sobre “uma miúda negra magricela descendente/ de escravizados e criada por uma mãe solteira” e também sobre a reparação dos danos da escravatura e das feridas antigas e recentes da América. Agora, a tradução da obra de Gorman nos Países Baixos gerou polémica — Marieke Lucas Rijneveld, nome literário muito respeitado e que recebeu o prémio International Booker em 2020, abandonou o projecto de traduzir a colecção de poesia The Hill We Climb pelas fortes críticas de que a editora foi alvo por escolher uma pessoa branca para o projecto.

Marieke Lucas Rijneveld, que se identifica como pessoa não-binária e por isso não usa os pronomes masculinos ou femininos, recebeu o International Booker por The Discomfort of Evening, o seu romance de estreia que será editado este ano em Portugal pela D. Quixote. A editora Meulenhoff considerou que Rijneveld era “a pessoa de sonho para fazer a tradução” e o projecto de traduzir para neerlandês a obra da norte-americana de 24 anos foi recebido com muito agrado por Marieke Lucas Rijneveld.

“Numa altura de crescente polarização, Amanda Gorman evidencia na sua jovem voz o poder da spoken-word, o poder da reconciliação, o poder de alguém que olha para o futuro em vez de olhar para baixo”, escreveu Rijneveld sobre a oportunidade para traduzir a colecção de poemas. “Quando surgiu o convite para a tradução só pude dizer ‘sim’ e apoiá-la”, escreveu no Twitter a 23 de Fevereiro. Em apenas três dias, tudo mudaria.

Um ícone instantâneo

Após a tomada de posse de Biden, em Janeiro, as traduções e os vídeos da norte-americana correram mundo e desde a sua bandelete vermelha até à sua arte de spoken-word aperfeiçoada precisamente por Gorman ter dificuldades na oralidade, a autora formada em Sociologia tornou-se uma espécie de ícone instantâneo — tanto viu os seus futuros livros encimar os top de pré-vendas quanto assinou contrato com uma importante agência de modelos. Em Fevereiro, foi a primeira poeta a declamar na final do campeonato de futebol americano, o Super Bowl.

“Nós, os herdeiros de um país e de um tempo, onde uma miúda negra magricela descendente/ de escravizados e criada por uma mãe solteira pode sonhar em tornar-se presidente, e logo/ ver-se a declamar para um”, leu em Washington. O poema fala de “compor um país comprometido com todas as culturas, cores, feitios e condições humanas”, e remata: “Essa é a promessa-clareira, a colina a subir, se assim ousarmos./ Porque ser da América é mais do que um orgulho que herdamos./ É o passado em que entramos e a forma como o reparamos.”

Dois dias depois de a editora ter anunciado o nome que assinaria a tradução, a activista Janice Deul assinava no jornal Volkskrant um texto de opinião que dava visibilidade mediática a uma polémica cujo rastilho fora aceso nas redes sociais. “Uma tradução branca para a poesia de Amanda Gorman: incompreensível”, titulava. “Uma oportunidade perdida”, a escolha de alguém sem experiência na tradução e que não seja “artista de spoken-word, jovem, mulher e assumidamente negra”, defendeu a activista cultural, que é negra.

No início de Fevereiro, a Casa Fernando Pessoa publicou uma tradução do poema de Gorman assinada pela poeta Raquel Lima, investigadora em Estudos Pós-Coloniais e que é negra — é essa tradução que é citada neste artigo. O PÚBLICO publicou, dois dias depois da inauguração de Biden, uma tradução de The Hill We Climb assinada pelo advogado Agostinho Pereira de Miranda, presidente da associação ProPública – Direito e Cidadania, que é branco. Em França, por exemplo, a tradução da obra de Gorman cabe à cantora belga-congolesa Marie-Pierra Kakoma.

Um dia depois da publicação do artigo no Volkskrant, Marieke Lucas Rijneveld reagia no Twitter retirando-se do projecto. Manifestando-se “em choque pelo tumulto” em torno do seu envolvimento “no acto de espalhar a mensagem de Amanda Gorman”, Rijneveld disse ainda assim que compreende “as pessoas que se sentem feridas pela decisão da Meulenhoff” de lhe entregar a tradução. A editora aceitou a decisão, apesar de manter a sua escolha de Rijneveld — que detalhou que “a equipa de Amanda disse que ainda apoia a escolha [de autoria da tradução] da Meulenhoff”. Rijneveld já tinha começado o projecto que agora abandonou. “Dediquei-me com felicidade a traduzir a obra de Amanda, na qual o maior desafio seria manter o seu poder, tom e estilo. Mas estou ciente de que estou numa posição em que posso senti-lo e fazê-lo, na qual muitos não estão.” A editora procura agora uma equipa para fazer a tradução e “quer aprender” com o caso.

E o que pensa agora Amanda Gorman sobre o caso? A poeta não respondeu ainda a perguntas da imprensa após a polémica. No dia em que Marieke Lucas Rijneveld anunciou que assinaria a tradução, Gorman republicou esse tweet. A editora dos Países Baixos garante, segundo o diário britânico The Guardian, que foi a própria Amanda Gorman a escolher Rijneveld, de 29 anos, para traduzir as suas palavras.

Nos últimos dias, o caso começou a circular na imprensa internacional onde os temas da discriminação e representação vão sendo debatidos e denunciados. No início do ano, em Portugal, a dobragem do filme de animação Soul, da Pixar, gerou protestos pelo facto de a voz da personagem principal, interpretada nos EUA de origem por Jamie Foxx, ter sido entregue a Jorge Mourato, que é branco. O filme, uma das estreias do ano e um marco por ser o primeiro título da Pixar com uma personagem negra ao centro, é sobre um saxofonista de jazz e tem um elenco eminentemente negro. Algumas expressões do original que identificam cores de pele ou caracterizam estilos musicais como negros foram substituídas por termos neutros. Uma petição, que na altura da publicação desta notícia ultrapassa as 17.500 assinaturas, pediu à Disney, detentora da Pixar, uma nova versão do filme “respeitando a intenção original e reconhecendo a importância histórica deste momento. Porque este filme não é apenas mais um filme e o que ele representa importa”. Subscrita e lançada por nomes como Mamadou Ba, Sara Tavares, Dino D’Santiago ou Nástio Mosquito, a petição obteve como reacção da Disney um comunicado em que o estúdio detentor da Pixar garante estar comprometido com a diversidade e reconhece “que há trabalho a fazer”.