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A morte lenta das cabines telefónicas, “guardadoras de segredos”

A relação entre as pessoas e as cabines telefónicas está em modo "é complicado". As ternas palavras e fotografias do britânico Sam Ryde, autor do projecto Phone Booths, prometem mudar a forma como olhamos para estes elementos no espaço urbano. "Por norma, a sociedade destrói o que é inútil – com excepção das cabines telefónicas."

Mayfields Lavender Field, Surrey, Inglaterra ©Samuel Ryde
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Mayfields Lavender Field, Surrey, Inglaterra ©Samuel Ryde

São um ícone da identidade britânica. Algumas transformaram-se em pontos de referência em Londres por existirem, no mesmo local, há mais de cem anos. São esteticamente interessantes – algumas são mesmo verdadeiros fenómenos no Instagram. “As pessoas sentem, definitivamente, um fraquinho por elas. Vêem-nas, talvez, como um velho amigo. Um velho amigo que está coberto de grafitti e com o qual já ninguém se importa.”

Quem ouve o fotógrafo britânico Samuel Ryde falar de cabines telefónicas pode pensar que fala de pessoas. No seu discurso há laivos de carinho, respeito, nostalgia. “Elas foram tão importantes. Durante muito tempo, as pessoas contaram mesmo com elas. Agora são só antiguidades, peças de museu que estão espalhadas pelas ruas e que sofrem abuso.” Raras são as cabines telefónicas que, hoje, cumprem mormente a função para a qual estão destinadas. São, em muitos casos, meras salas de chuto ou mictórios plantados em espaço público. “Ninguém as quer limpar. Ninguém toma verdadeiramente conta delas, mas ninguém quer realmente que desapareçam. São ignoradas, mas não a ponto de serem removidas.”

O facto de resistirem, enquanto instalação urbana, à sua própria obsolescência intriga Sam Ryde, que, por isso, as considera uma peça verdadeiramente única no espaço urbano. “Elas são um negócio. Um negócio sem clientes. Por norma, a sociedade destrói o que é inútil – com excepção das cabines telefónicas, que ficam ali esquecidas, a morrer lentamente, sem que ninguém se importe. Acho que isso revela muito da mente humana. Esquecemos com facilidade coisas de que gostamos. Mesmo quando continuamos a gostar delas e a poder contar com elas, se não precisarmos delas somos capazes de as bloquear, ignorá-las. É triste, mas é interessante.”

Uma cabine telefónica continua, na maioria dos casos, a ser uma cabine telefónica. Tem um telefone lá dentro que funciona e que se pode usar à sombra ou abrigado da chuva e com um certo grau de privacidade. “Elas continuam a ser úteis”, sublinha Samuel Ryde. “Se o teu telemóvel se avariar ou ficar sem bateria, se ficares apeado, se houver uma emergência, as cabines continuam lá para te ajudar. Mas a nossa atitude não é condizente com isso. Elas não são tratadas com esse respeito.” Ou olhadas como os objectos únicos que são, um reflexo da época em que “brotaram” do chão londrino. “Algumas são interessantes por serem objectos históricos. Existe uma junto ao parlamento inglês que é a cabine telefónica mais fotografada do mundo, visitada por toda a gente que visita Londres. Há uma em Covent Garden, junto ao tribunal, que foi usada, durante décadas, por jornalistas para comunicarem com as redacções à saída dos julgamentos.” Mas aquelas com que Sam Ryde sente mais afinidade são “as cinzentas feias” que foram instaladas na capital inglesa nos anos 80 e 90. “Ao contrário das vermelhas, exageradamente estilizadas, as cinzentas são puramente utilitárias e resumem-se, literalmente, a quatro paredes e um tecto. Gosto delas porque simbolizam a decadência da Grã-Bretanha contemporânea.”

Além de diferenças óbvias que se prendem com a data de nascimento de cada uma, existem aquelas cabines que se tornam especiais pelas suas marcas de envelhecimento – em alguns casos, pelas suas cicatrizes. “As cabines são, inadvertidamente, telas espalhadas pela cidade onde as pessoas deixam a sua marca”, explica Sam. “São como memoriais. Acredito que se pegássemos em cabines de diferentes zonas, sem as alterar, e as colocássemos num museu ou galeria, elas seriam objecto de verdadeira reflexão. Reflectem o ambiente em que estão inseridas de uma forma muito precisa.” E dá um exemplo. “As cabines das zonas rurais ou de classe média estão em excelente estado. As pessoas cuidam delas ou transformam-nas em pequenas bibliotecas ou livrarias. Em zonas mais urbanas, mais duras, elas são apenas caixas decrépitas onde as pessoas consomem drogas. A disparidade é enorme.”

Lembra a história triste de uma cabine telefónica de Brixton. “As pessoas usavam-na para consumir droga, por isso pintavam os vidros com tinta, para terem mais privacidade. Os donos das lojas em redor não queriam que eles consumissem no interior das cabines, por isso partiam os vidros. A companhia dos telefones, a British Telecom, reparava a cabine e começava tudo de novo. De novo. De novo. Naquele caso, não existia qualquer vantagem na existência daquela cabine, mas ela lá estava, a sofrer abuso. Ela está lá apenas para ajudar as pessoas e paga um preço muito elevado por isso. Deviam ser vistas como pequenos santuários porque conhecem muitos segredos. Sabem todos os segredos de quem as usa.”

Por serem “guardadoras de segredos”, “pequenos confessionários”, as cabines podem até adquirir uma dimensão espiritual inesperada. “Existe uma muita famosa no Japão”, refere Ryde. “Fica em Fukushima. Um homem que perdeu familiares durante o tsunami colocou uma cabine branca no seu quintal, virada para o mar, desligada da rede. Desligada de tudo. E passou a usá-la para comunicar com os familiares que faleceram. Dizia que as palavras seriam transportadas pelo vento.” Outras pessoas, de outras zonas do Japão, começaram a usá-la com o mesmo fim. “Houve até quem mudasse de cidade para poder estar próximo da cabine. Isso revela o poder que pode ter enquanto símbolo, enquanto objecto.”

Algumas phone booths têm sofrido modificações para responder às necessidades do ciborgue do século XXI – ou seja, do humano munido, a todo o momento, de um smartphone. “A cabine é muito estreita, tem um telefone de uso gratuito e entradas USB onde qualquer pessoa pode carregar o telemóvel”, descreve. Mas novas ferramentas, novos hábitos. “Em East London vi um senhor sem-abrigo que se mudou com todos os seus pertences – mobília inclusivé – para junto de uma dessas cabines, onde conseguia ligar o telefone e outros aparelhos eléctricos nas portas USB. Achei incrível.”

Algumas cidades, como Nova Iorque, Paris, Berlim, já se “livraram” das cabines telefónicas. “Em alguns lugares já são uma espécie em vias de extinção", lamenta o fotógrafo, que é autor de um projecto de formato semelhante dedicado a secadores de mãos, Hand Dryerspublicado no The New York TimesThe Guardian, Wired, entre outros, e que existe – embora se encontre esgotado – em formato de fotolivro. "Um dia, quando precisares de uma cabine telefónicas, irás tentar encontrar uma e descobrir que já não existe.”

Mercado Smithfield, Londres, Inglaterra
Mercado Smithfield, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Lewisham, Londres, Inglaterra
Lewisham, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Deptford, Londres, Inglaterra
Deptford, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Praça Trinity, Londres, Inglaterra
Praça Trinity, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Elephant and Castle, Londres, Inglaterra
Elephant and Castle, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Peckham Rye, Londres, Inglaterra
Peckham Rye, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Praça do Parlamento, Londres, Inglaterra
Praça do Parlamento, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Redchurch Street, Londres, Inglaterra
Redchurch Street, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Mercado Peckham, Londres, Inglaterra
Mercado Peckham, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Mercado de Chrisp Street, Londres, Inglaterra
Mercado de Chrisp Street, Londres, Inglaterra
Queens Road, Londres, Inglaterra
Queens Road, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
Whitehall, Londres, Inglaterra
Whitehall, Londres, Inglaterra ©Samuel Ryde
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