A importância de ser Europa

Aquilo de que parecemos tão distantes, essa Europa a que pertencemos, é na verdade a maior força que temos para enfrentar as adversidades das crises não só de saúde pública, mas também de carácter económico-financeiro.

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Reuters/YVES HERMAN

A 1 de Janeiro de 2021, Portugal assumiu a Presidência do Conselho da União Europeia. Conselho da União Europeia não significa Conselho Europeu, que por sua vez não é a mesma coisa que Comissão Europeia e que também não é o Parlamento Europeu. Da mesma forma, não é sinónimo de Conselho da Europa.

Na era da informação, os portugueses presidem aquilo que não sabem que lideram. A política tem ferramentas que os portugueses não sabem aplicar. Portugal tem oportunidades que não antevê aproveitar.

Nos tempos em que a notícia se propaga à velocidade de um clique e que a comunicação e esclarecimentos são pedidos e prestados em espaço de segundos, mantemo-nos inertes e inanimados, como se não houvesse premência na luta e no combate às fake news e desinformação. Quando devia ganhar relevância a política europeia, dão-se privilégios às autárquicas e legislativas, não fosse a situação pandémica ultrapassável pelo esforço conjunto de negociação dos países europeus no acesso à quantidade de vacinas adequada à população de cada Estado Membro.

Está na hora de estabelecer sinergias e realçar o conceito One Health, que estimula a coordenação das saúdes humana, ambiental e animal, primando pela best health. Relaciona-se com o lema da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia: “Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital”, máxima que promove a superação sustentada da crise pandémica humana, como líder da acção climática, acelerando a transformação digital ao serviço de cidadãos e empresas e valorizando uma Europa aberta ao mundo. Aquilo de que parecemos tão distantes, essa Europa a que pertencemos, é na verdade a maior força que temos para enfrentar as adversidades das crises não só de saúde pública, mas também de carácter económico-financeiro. Esse discernimento que nos falta talvez provenha do conhecimento que parte da cultura, do saber ser social, que nos impele para a frente e que tão prontamente desprezamos. Talvez o desinvestimento constante e os apoios insuficientes ao sector e profissionais das artes seja parte da explicação para governarmos aquilo que não sabemos comandar.

Não amamos uma Europa mais vanguardista que uma das maiores potências mundiais como os Estados Unidos. Se na América do Norte há uma vice-presidente mulher, a União Europeia tem na presidência da Comissão Europeia Ursula Von der Leyen e na presidência do Banco Central Europeu Christine Lagarde.

Dirigimos durante seis meses um Conselho que expressa a vontade de 27 países, através dos seus ministros, tendo também poder legislativo e reunindo sobre temas tão essenciais como a economia, agricultura, educação, telecomunicações. Se queremos reforçar o modelo social europeu, a formação dos jovens tem de ser prioritária. A taxa de abstenção portuguesa nas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 foi de 69,3% (números da Pordata) e associa-se ao desconhecimento da União Europeia e suas instituições. Somos nós, cada português, cada alma lusitana camoniana, que pode escolher os eurodeputados na representação de Portugal, integrantes dos 705 deputados do Parlamento Europeu, nos oito grupos políticos. Esse voto nas eleições europeias, que decorrem a cada cinco anos e cuja taxa de abstenção é sempre desanimadora e na qual vergonhosamente eu própria me incluo.

O Tratado de Lisboa veio robustecer o poder do Parlamento Europeu, que merece ser escolhido por vozes conscientes. Temos de ter pressa em ter palavra activa na Europa. Temos de nos saber potenciar como instrumento de política externa e diplomacia, pela educação e formação. É a inquietude tenaz e perseverante que se intensifica o alcance do projecto europeu, em liberdade.

É urgente. É emergente. É a pulseira vermelha da Triagem de Manchester quase a transitar para o óbito que nos diz que é preciso, que é realmente necessário saber a importância de ser Europa.