Nomadland: o sonho não é para todos

Jessica Bruder escreveu Nomadland, o livro. É a história de uma tribo: os nómadas que atravessam a América atrás de trabalho e bom tempo. Quase todos em idade da reforma, a viver sobre rodas e a lidar com o grande paradoxo americano: o sonho e os que deles são excluídos. Uma conversa a partir de Brooklyn antes da estreia do filme, Nomadland, em Portugal.

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A pequena cidade de Needles fica no lugar onde o rio Colorado “corre velozmente entre os juncos” junto à fronteira com o estado do Arizona. Vindos de Oklahoma, de outra cidade pequena chamada Sallisaw, os Joad percorrem mais de mil e oitocentos quilómetros, quase em linha recta, em direcção a Oeste. Eles são os protagonistas de As Vinhas da Ira, a obra mais reverenciada de John Steinbeck. Fugiam da miséria que, em alguns estados do país, foi consequência da conjugação trágica entre a Grande Depressão e um fenómeno atmosférico que ficou conhecido como dust bowl, tempestade de chuva, vento e poeira que ninguém como Steinbeck fixou. O momento em que os habitantes de Oklahoma, Arkansas, Missouri e Texas acordaram para a devastação. “Pela manhã, a poeira pairava como um nevoeiro, e o Sol estava vermelho como sangue fresco. Todo o dia a poeira se peneirou do céu e, no dia seguinte, continuou a escorrer da mesma forma. A terra cobriu-se de um manto uniforme. Pousava sobre o milho, amontoando-se nas estacas das vedações e nos fios telegráficos; assentava sobre os telhados e ocultava as plantas das árvores.”

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