O insulto do Governo de Boris Johnson

Já não há paciência para o umbiguismo nacionalista de Boris Johnson. Talvez o melhor seja os operadores turísticos nacionais virarem-se para outros mercados, que fazem uma gestão estável e credível dos seus fluxos turísticos em tempos de pandemia sem precisarem de estar sempre com manobras para chamar a atenção.

Durou apenas 23 dias a permanência de Portugal na lista verde dos países seguros para viajar, o que é absurdo e uma evidência da gestão errática que o governo de Boris Jonhson tem feito da pandemia, o que nada abona em favor de uma imagem de confiança e credibilidade que o Reino Unido devia dar no pós-"Brexit”.

A verdade é que, mesmo com os bons resultados no combate à pandemia em Portugal, pareceu estranho que fosse o único país comunitário a ser bafejado com o privilégio de fazer parte da tal lista hiper restrita a partir de 17 de maio, quando na realidade outros Estados-membros da União Europeia tinham uma situação epidemiológica que lhes permitiria serem considerados da mesma forma. A diferença é que não tinham a final da Champions, pelo que é legítimo pensar que a decisão britânica de incluir Portugal nos destinos seguros, afinal apenas tinha por objetivo criar condições para os adeptos do Chelsea e do Manchester City poderem viajar para o Porto para ver o jogo. Só que, por arrasto, o Governo acabou também a dar esperanças de férias tranquilas a milhares de outros britânicos.

Assim, talvez o principal motivo porque decidiu retirar Portugal da lista verde esteja precisamente na falta de confiança que o Governo britânico tem nos seus cidadãos, a julgar pelo comportamento de muitos adeptos no Porto e no Algarve, violento, descontrolado e sem qualquer respeito pelas regras sanitárias nem pela hospitalidade portuguesa. Portanto, é pouco plausível que a decisão britânica tenha verdadeiramente a ver com o aumento dos casos e das novas variantes, mas sim porque o comportamento dos seus cidadãos em férias no estrangeiro pode ser um perigo para a saúde pública no regresso ao Reino Unido e uma ameaça à anunciada abertura do país no próximo dia 21.

A decisão do governo de Boris Johnson é insultuosa não apenas para Portugal por causa das suas implicações económicas, mas também para todos os britânicos que ficaram com as férias estragadas e para os agentes turísticos que levam uma violenta machadada na sua atividade. E é também um insulto à objetividade científica que, alegadamente, o governo britânico diz usar para tomar as suas decisões. Ainda recentemente, vários cientistas britânicos juntaram-se para pedir encarecidamente ao governo para deixar de se escudar na ciência para tomar decisões políticas relacionadas com a gestão da pandemia, seja para justificar desconfinamentos ou viagens ao estrangeiro, mas que nada tem a ver com a objetividade dos dados. O contexto do substantivo acordo comercial realizado com a Índia no início de maio e a permissividade garantida por Londres a viagens oriundas daquele país é disso um bom exemplo.

Na realidade, tudo parece uma questão política, porque o governo do Reino Unido mostra-se infantilmente apostado em tentar provar que não precisa da União Europeia para nada, só para convencer os britânicos que o “Brexit” foi uma coisa boa. E para isso nem hesita em penalizar os seus cidadãos com as quarentenas e o preço exorbitante que têm de pagar pelos inúmeros testes covid que têm de fazer, como se quisesse impedir os britânicos de passar férias no estrangeiro.

Já não há paciência para o umbiguismo nacionalista de Boris Johnson. Talvez o melhor seja os operadores turísticos nacionais virarem-se para outros mercados, como o francês, espanhol, alemão, italiano ou norte-americano, que fazem uma gestão estável e credível dos seus fluxos turísticos em tempos de pandemia, sem precisarem de estar sempre com manobras para chamar a atenção.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico