“Uma epopeia coletiva”

Raras vezes um governo teve um discurso celebratório tão positivo da Revolução. O que aconteceu para que um governo socialista tenha chegado até aqui?

“Uma epopeia coletiva não traumática, associada a (...) transformações económicas, sociais e culturais profundas.” É assim que o Governo descreve a forma como “a sociedade portuguesa viveu” a Revolução de 1974-76 na resolução do Conselho de Ministros com que pretende preparar as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Raras vezes um governo teve um discurso celebratório tão positivo da Revolução. Não posso prever que opções serão tomadas no programa de comemorações, nem como estas efetivamente correrão; cessando funções mais de meio ano antes do 50.º aniversário, este governo cobrirá apenas o primeiro ano e meio (e o menos significativo) de um programa de comemorações que deverão estender-se entre 24 de março de 2022 (momento em que a democracia superará em duração o período de vigência da ditadura de 1926-74) e 12 de dezembro de 2026 (50.º aniversário das primeiras eleições autárquicas). Mas devo sublinhar que, tendo estudado as comemorações dos aniversários redondos do 25 de Abril (desde o 5.º, em 1979, ao 40.º, em 2014), é a primeira vez que vejo uma definição institucional do processo democratizador português que não só não volta ao velho tropo do trauma coletivo, como o rejeita explicitamente.

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