Os pés húmidos

Ainda hoje admiro e sou grata aos professores que dão muito mais do que o seu horário à escola, aos miúdos. Muitos sabem que depende deles o molde humano que sairá dali.

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"Ainda hoje admiro e sou grata aos professores que dão muito mais do que o seu horário à escola" Mag Rodrigues

O táxi subiu a rampa comigo a apontar para aquela que foi a minha escola primária: lembro-me como se fosse hoje do primeiro dia de aulas e eu agarrada à saia da minha mãe chorando como se o cadafalso me aguardasse. Tinha 5 anos é certo, mas se pudesse reparava esse instante.

Quando a minha mãe, entre lágrimas, me deixou sozinha na escola (foi a primeira vez que me separei dela) puseram-me ao lado da Deolinda. Como é que eu me lembro dela? Talvez porque se pudesse, eu queria mesmo ficar ao lado dela agora.

A Deolinda era uma miúda que vinha de uma família muito pobre e tinha problemas de saúde graves. A fala era cavernosa o que a distinguia desde logo dos outros miúdos e tinha um cabelo áspero mesmo num tempo onde não havia quem nos amaciasse nós cegos. Deolinda tinha muitos problemas, mas tinha também piolhos. Lembro-me de alguém ter gritado como se a escola fosse explodir: “Ela tem piolhos!” Eu chorei mais, muito mais implorando que não me pusessem ao lado da miúda do cabelo onde se escondiam mais do que nós.

Há poucos momentos em que tenha vontade de voltar atrás na minha vida, e, no entanto, voltaria a este instante repondo justiça naquela carteira de escola. A forma como não somos educados para o que destoa, vai levar a que muitas vezes olhemos para trás com arrependimento. Eu tenho-o com a Deolinda. Caberiam outros nomes aqui, mas as crianças, todos sabemos: não são o melhor do mundo.

A escola já não era a mesma. Havia agora uma casa de madeira pré-fabricada que não percebi se era uma creche mas quando o carro deu a volta lembrei-me do momento em que me decidi aventurar nos pedais de uma bicicleta e embati violentamente num caixote do lixo. Da escola teria muito para contar. O lugar que existiu resiste na minha memória.

Parece que ainda tenho os pés húmidos de quando ali chegava com as galochas vermelhas e ficava nelas o resto da tarde. A luz eléctrica fraca, um giz estridente no quadro a gritar mais do que o nosso desconforto. Eram dias tristes, os da chuva. Depois chegava a casa, quase sempre doente, e a minha mãe via-me a febre e lá estava eu quente ouvindo o diálogo certo dela com o meu pai: “A miúda está outra vez doente.” Foram tantas as vezes. Um dia tive de abandonar as galochas vermelhas.

Podia resumir esse tempo de escola ao vermelho das galochas e à caneca laranja trazida de casa onde me serviam o leite que acompanhava o lanche. Tão poucos objectos na minha infância. Tão recorrentemente presentes.

Nesta visita geográfica ao meu passado, olhei para o portão da D. Graziela. A D. Graziela era empregada na escola e vivia ali muito perto. Era uma mulher de cara hidratada a cheirar sempre a limpo que vivia com a mãe. Ambas tinham o cabelo grisalho, mas a D. Graziela que esbranquiçou antes do tempo, usava o cabelo curto como a Elis Regina.

Nada sabia daquela senhora solteira que se ocupava dos miúdos com tanto amor que me faz estar agora a falar dela. Com a D. Graziela fizemos piqueniques na praia mesmo quando a areia estava molhada e o nevoeiro não me deixava ver o cabelo dela. A D. Graziela que um dia foi parar ali à escola, vinda não sei eu de onde, ocupava-se de nós com uma dose de amor só comparável à que pomos nos nossos filhos. Lembro-me do riso dela. Do cheirinho da pele dela. Da forma como nos defendia e defendia a necessidade dos seus piqueniques. Olhei para a casa que um dia ela ocupou e vi uma vegetação a crescer sem mão.

A D. Graziela há muito que não morava ali.

No passeio até à escola que já não existe, ainda cabe a mulher que provavelmente ajudou também a que a minha vida fosse outra: a professora Conceição. Era alta e esguia, óculos grandes que lhe emolduravam a cara. Uma voz às vezes trémula. Uma austeridade nada inconsistente. A exigência dela é que fez de mim melhor. Mulher depois. Visitei-a muitas vezes já quando era assumidamente crescida, grata por me ter ensinado tanto e tão bem. Um dia foi a D. Graziela a dar-me a notícia da sua morte.

Ainda hoje admiro e sou grata aos professores que dão muito mais do que o seu horário à escola, aos miúdos. Muitos sabem que depende deles o molde humano que sairá dali.

A professora Conceição e a D. Graziela. A minha caneca laranja. As galochas vermelhas. A Deolinda e a sua voz roufenha.

Nós nunca saímos da escola mesmo quando a escola já não é ali.