Antes que seja tarde demais

É urgente não falhar novamente ao povo afegão, retirar e acolher os refugiados do país e usar todos os mecanismos internacionais para exigir às diversas potências que não façam parte desta noite negra no Afeganistão.

A palavra afegã para noiva e boneca é a mesma: arus. Quem conta é Asne Seierstad n'O livreiro de Cabul. Não se engane pelo título, não é a história de um vendedor de sonhos - é sobre o papel da mulher na sociedade afegã no período da ocupação pelos EUA e a NATO. Aliás, é bem mais do que isso, é a história de gerações de mulheres menosprezadas há décadas naquele país - uma boneca nas mãos de uma sociedade que a desvaloriza. Nesse relato, Seierstad confronta o livreiro e relata a angústia da primeira mulher deposta pela idade ou o sofrimento da segunda que, aos dezasseis anos, foi obrigada ao casamento com um velho.

Tudo ficará pior agora para estas mulheres, regressados os taliban, e com todas elas estamos solidários. Mas elas nunca foram prioridade para os beligerantes e as suas potências, por muitas lágrimas de crocodilo que agora se veja correr. Bush não fez a guerra por elas; Karzai, o primeiro dos presidentes afegãos promovido pelos EUA e a NATO, chegou a promulgar a Lei Xiita da Família, que incluía a autorização do casamento de adolescentes de 14 anos e o direito dos maridos forçarem sexualmente as suas mulheres; durante anos as ONG pediam em vão mais meios para garantirem os direitos das mulheres, em particular fora da designada “zona verde”; Biden não teve qualquer palavra para elas quando se dirigiu ao mundo. O poder, foi sempre a luta pelo poder - já assim tinha sido quando os EUA financiaram os taliban nos anos 90 e lhes entregaram a posição dominante no país.

Caiu como um baralho de cartas ao mínimo sopro - assim foi a debacle do Afeganistão nas mãos dos taliban. Em apenas 10 dias o regime imposto pelos EUA há duas décadas ruiu - 20 anos de ocupação, uma guerra que custou de 2286 milhões de euros e o Exército afegão apreçado em 75 mil milhões de euros. Os 300 mil militares do Exército afegão desertaram na sua imensa maioria, deixando as armas e o país ao inimigo. Um regime imposto pelos ocupantes, uma elite governante envolvida em mega-esquemas de corrupção, terá feito nascer a pergunta: “Para quê lutar?”. Esta é a principal derrota política dos EUA. “Americanos não devem lutar a guerra que afegãos não querem lutar” reconheceu Joe Biden, resignado. Falhou compreender o essencial, esta não era uma guerra dos afegãos, era dos EUA e da NATO.

Quando se vira a página nesta guerra, fica uma pergunta: Qual o balanço dos que fizeram a guerra em nome do combate ao terrorismo e cujo resultado foi a proliferação dos grupos terroristas, como o Daesh? Tentaram apagar o fogo com a gasolina que inflama as narrativas contra os opressores e os ocupantes: o negócio da guerra foi um falhanço para os povos de todo o mundo. E a responsabilidade perante o povo afegão? Mais 47 mil vítimas civis, 66 mil soldados afegãos, 72 jornalistas e 444 trabalhadores de ajuda humanitária. E agora? Irão os EUA e os restantes países da NATO fazer a única coisa responsável que é abrir corredores humanitários para acolher refugiados afegãos? Ou deixarão para trás dezenas de milhar desesperados à mercê dos taliban?

E quem se vai aproveitar de um país mergulhado no caos? A mesa dos taliban tem sido disputada. Os EUA nunca deixaram de tentar um acordo com os taliban, mas o jogo parece ter virado de lado. O Paquistão esteve na linha da frente no apoio aos taliban, garantindo conhecimento e apoio militar estratégico, esperando ter um quinhão dos despojos de guerra. Do lado da China, estão em mira os enormes recursos naturais do Afeganistão, com boas reservas de ferro, cobre e ouro e um dos maiores depósitos inexplorados de lítio do mundo. E também a Rússia está à espreita, dela se suspeita que tenha vindo algum apoio militar para a cavalgada triunfante dos taliban. Nenhuma destas potências perde o sono com o desrespeito pelos direitos humanos - o saque do país não trará problemas de consciência, mesmo que mantenha o povo afegão na penúria.

O abismo aprofunda-se sobre o Afeganistão e o seu povo. Malala Yousafzai afirmou que “os países que usaram os afegãos como peões nas suas guerras ideológicas e gananciosas deixaram-nos a aguentar o peso por sua conta”. Antes que seja tarde demais é urgente não falhar novamente ao povo afegão, retirar e acolher os refugiados do país e usar todos os mecanismos internacionais para exigir às diversas potências que não façam parte desta noite negra no Afeganistão.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico