Não se vê através de uma porta, mas pode escutar-se

As mulheres, mesmo as de má índole e ossudas como é o caso da nossa chefe, são criaturas encantadoras; o mundo seria um lugar feio sem estes seres humanos tão agradáveis. Imaginem um mundo só com homens. Seria terrível.

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Michael Jasmund

Quando se é velho parece que há uma espécie de lei universal que nos torna indignos do amor amoroso. A ser verdade, os velhos deixariam de correr o risco da síndrome do coração partido; pior ainda, para a sociedade parece que deixámos de ter coração, e não se pode quebrar aquilo que não existe.

Posso dizer que sinto há muito um arrebatamento por uma rapariga. Talvez desde o primeiro momento em que a vi. O seu aspecto intrigante sempre me atraiu. Claro que este tipo de interesse nada tem que ver com aquilo que sinto pela minha mulher. São coisas diferentes. O bem-querer que sinto pela tal rapariga é um bálsamo refrescante, um elixir que faz lembrar os meus tempos de juventude. Nunca na vida tentaria efectivar nada, gosto apenas de a ver à distância, de admirar o seu jeito singular, dá-me uma certa alegria. Vê-la existir dá-me ânimo para continuar atento às coisas bonitas da vida, é isso.

Talvez eu esteja mesmo imune à síndrome do coração partido e mais próximo da síndrome do passarinho. É assim que se costuma chamar a fragilidade do cônjuge que sobrevive por pouco tempo à morte da companheira, tal qual um frágil passarinho acabará por não aguentar muito tempo ver-se sozinho numa gaiola partilhada, e falecer.

Certa vez, vi a rapariga chegar aqui ao escritório, como sempre antes da hora de serviço, e pensando estar sozinha na sala, estava eu no corredor junto à máquina de café, arregaçou a saia até às ancas e ajeitou o cós dos collants mesmo junto ao sexo. Fê-lo com tanta destreza e rapidez que me pareceu uma coreografia – quanta beleza tem o género feminino. A moça não é o tipo de mulher sensual, com uma gestualidade erotizada, é uma rapariga prática; portanto, a intimidade a que assisti por acidente não teve, para mim, qualquer afectação sexual. Foi apenas belo.

As mulheres, mesmo as de má índole e ossudas como é o caso da nossa chefe, são criaturas encantadoras; o mundo seria um lugar feio sem estes seres humanos tão agradáveis. Imaginem um mundo só com homens. Seria terrível. Repugna-me só de o imaginar. Que lugar inóspito e triste. Nós, os machos, somos uns selvagens, malcheirosos e sem maneiras – mesmo os que se esforçam por ser o contrário disto.

Hoje em dia, a rapaziada já não faz distinções, e disseram-me que os WC públicos no estrangeiro deixaram de ter o género afixado na porta. É tudo ao molho e fé em Deus. Querem acabar com esta história de sermos diferentes. Custa-me acreditar nessa igualdade, é que nós somos mesmo diferentes. Claro que existem excepções, há homens efeminados e mulheres masculinizadas, mas, de uma forma geral, os homens e as mulheres têm características comportamentais que provêm não só da educação como da sua biologia. Talvez eu seja muito antigo e a minha camioneta não consiga abarcar estas areias movediças, não sei.

Fechada no quarto de banho da empresa, também de género misto devido à estreiteza das instalações, a rapariga ou algo que trazia consigo emitia ruídos verdadeiramente impressionantes. Bati com ligeireza à porta, tentando não perturbar. “Está tudo bem, menina? Pode dizer-me o que se passa?” Após as minhas perguntas, o ruído cessou. A rapariga saiu e olhou-me com desdém.