No Dia Nacional do Psicólogo vamos comemorar a saúde mental

Afirmar a psicologia como uma ciência também passa pelo reconhecimento, pelos outros profissionais de saúde, do trabalho dos psicólogos e pelo esforço da interligação da actuação entre profissionais de saúde e de outras áreas de relevo.

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@petercalheiros

No dia 4 de Setembro assinala-se o Dia Nacional do Psicólogo, data que deve servir para dar a conhecer o contributo do psicólogo na prevenção da doença e na promoção e desenvolvimento do bem-estar psicológico, físico e social das pessoas. Estes profissionais desempenham um papel relevante em diferentes áreas e contextos, sejam hospitais, empresas, escolas, estabelecimentos prisionais, centros de saúde, clínicas, centros comunitários e desportivos.

Em Portugal, a criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) revelou-se fundamental para regulamentar o exercício da profissão, impedindo o uso indevido do título de psicólogo por pessoas que não estão devidamente habilitadas, e, por outro lado, para dar voz aos psicólogos e ao crescente reconhecimento da importância do trabalho destes profissionais na nossa sociedade. Profissionais certificados que recorrem ao conhecimento na área da psicologia estão a abrir caminho para a promoção da literacia em saúde mental, ajudando a desmistificar crenças erradas associadas à psicologia e a tornar mais claro o seu contributo para a construção de respostas possíveis aos desafios com que a sociedade e os indivíduos se confrontam.

Um exemplo do contributo da ciência psicológica e da actividade dos psicólogos ainda muito presente na nossa memória relaciona-se com a actuação destes profissionais junto da sociedade durante a pandemia de SARS-COV2. Os dois últimos anos foram marcados por muita incerteza e restrições, que ainda perduram, e que põem à prova o bem-estar e a forma como as pessoas lidam com as situações de stress. Em resposta a esta crise global, vários psicólogos mobilizaram-se para informar sobre a saúde e a doença mental, normalizando sentimentos e receios e contribuindo para quebrar o estigma à volta destas últimas. Estes profissionais mostraram como é que a ciência pode ajudar a promover a adaptação perante uma situação de crise e a encontrar uma saída, ou pelo menos a encarar as dificuldades sob outra perspectiva. O reflexo disso resultou numa maior compreensão social da experiência de sofrimento, e em consequência, a uma maior abertura à procura de profissionais de saúde mental para reduzir o impacto negativo do mal-estar. Qualquer pessoa pode ficar ansiosa perante a incerteza e isso não é sinal de fraqueza ou de loucura, mas sim da condição humana.

Desde logo, um passo importante para a continuidade deste trabalho é o reconhecimento da necessidade de ampliar o olhar para a doença psiquiátrica ao nível dos cuidados de saúde primários tal como se olha para a doença física, incidindo sobre os aspectos inter-relacionados da saúde física, mental e social e do bem-estar. O objectivo é promover a equidade social e favorecer a capacidade da pessoa para gerir com autonomia e eficiência as dificuldades e os desafios da vida, quer se encontre com ansiedade, problemas interpessoais, depressão, problemas de adição, etc.. Dado que a procura de apoio psicológico aumentou e que continua a existir falta de resposta adequada no Serviço Nacional de Saúde (SNS), há uma enorme necessidade de contratação de mais psicólogos, reconhecendo e valorizando a sua prática e, ao mesmo tempo, assegurando que todas as pessoas possam ter acesso a mais e melhor psicologia. Aumentar o número de psicólogos no SNS permite que estes possam iniciar e dar seguimento a um atendimento regular, que garante ao utente fazer a primeira consulta hoje e não ter de esperar meses para voltar a estar com o psicólogo, o que destrói qualquer possibilidade do estabelecimento de uma boa aliança terapêutica e consequente adesão ao tratamento.

Afirmar a psicologia como uma ciência também passa pelo reconhecimento, pelos outros profissionais de saúde, do trabalho dos psicólogos e pelo esforço da interligação da actuação entre profissionais de saúde e de outras áreas de relevo, sejam médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, etc., que em conjunto podem dar a melhor oportunidade a cada utente de receber cuidados de saúde para o seu problema de forma integral. Uma pessoa que sofre um atropelamento, por exemplo, precisa da intervenção de médicos e de enfermeiros, mas também de um psicólogo no caso de vir a ressentir-se emocionalmente e entrar em choque perante o confronto com a possibilidade de morte e com a violência da situação em si. Este e outros episódios com forte cariz emocional podem ter um reflexo negativo no funcionamento da pessoa e o psicólogo está habilitado para auxiliar na compreensão e na normalização dos sentimentos que podem surgir, ajudando a pessoa a reorganizar-se.

Ainda há muito a fazer para continuar a dar a conhecer o valor da prática psicológica de qualidade, mas acredito que os psicólogos que hoje fazem parte de uma comunidade que vê a sua identidade cada vez mais reconhecida, sentem-se orgulhosos do seu contributo na melhoria da qualidade de vida de quem os procura.