Exercício regular pode diminuir o risco de desenvolver ansiedade em quase 60%, diz novo estudo

Os investigadores suecos Martina Svensson, Lena Brundin, Sophie Erhardt, Ulf Hållmarker, Stefan James e Tomas Deierborg analisaram os níveis de ansiedade de atletas de esqui da Corrida de Vasa, entre 1989 e 2010.

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A genética, os factores psicológicos e os traços de personalidade também poderão ter influência na ansiedade Paulo Pimenta/Arquivo

Não há dúvidas que o exercício físico tem benefícios para saúde mental. Portugal vive uma crise de saúde mental — só nos primeiros oito meses de 2020, venderam-se 6,5 milhões de embalagens de antidepressivos — e os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos a 2019, mostram que quase dois terços dos portugueses não praticam qualquer actividade física. Um novo estudo de investigadores suecos, publicado recentemente pela Frontiers, sugere que quem pratica exercício físico regular pode reduzir o risco de desenvolver ansiedade em quase 60%. Por isso, mexa-se pela sua saúde física e mental.

Estima-se que 10% da população do mundo seja afectada por perturbações de ansiedade e acredita-se que estas sejam duas vezes mais comuns em mulheres do que homens. Ainda que se saiba que o exercício físico (não precisam ser duas horas no ginásio ou um desporto de alta competição, basta uma caminhada ou uma partida de ténis com os amigos) pode ser uma estratégia para combater uma crise de ansiedade, um estudo publicado na Frontiers avança novas descobertas quanto à prevenção.

Os investigadores suecos Martina Svensson, Lena Brundin, Sophie Erhardt, Ulf Hållmarker, Stefan James e Tomas Deierborg analisaram os níveis de ansiedade dos atletas de esqui da Corrida de Vasa, entre 1989 e 2010, e concluíram que estes tinham “risco diminuído significativo” de desenvolver estas perturbações, quando comparados com quem não praticava desporto, durante o período análogo.

Descobertas surpreendentes entre as mulheres

O estudo tem por base os dados de mais de 400 mil pessoas, numa das investigações epidemiológicas mais abrangentes de sempre, com recurso a ambos os sexos. “Descobrimos que o grupo com um estilo de vida fisicamente mais activo via o risco de desenvolver perturbações de ansiedade diminuído em quase 60% durante o período de acompanhamento de 21 anos”, assinalam a principal autora do estudo, Martina Svensson, e o seu colega Tomas Deierborg, do departamento de ciências médicas experimentais da Universidade de Lund, na Suécia.

Ainda que a relação entre a prática de exercício físico e a diminuição do risco de desenvolver ansiedade tenha sido verificada em ambos os sexos, os investigadores encontraram uma diferença significativa entre em homens e mulheres, no que toca ao desempenho. Enquanto num esquiador do sexo masculino, o nível de performance não parecia afectar o risco de ter esta perturbação, nas mulheres nos lugares de topo das competições de esqui, o risco de desenvolver ansiedade duplicava, quando comparadas com as mulheres na base da tabela. Todavia, avisam os académicos, “o risco total de sofrer de ansiedade nas melhores atletas ainda era reduzido quando comparado com as mulheres sedentárias da população em geral”.

Será assim tão linear?

A descoberta de uma associação entre o nível de desempenho e o risco de desenvolver ansiedade nas mulheres enfatizou a importância científica de desenvolver este estudo. “Os nossos resultados sugerem que a relação entre os sintomas de ansiedade e o exercício físico não são assim tão lineares”, reconhece Svensson. A genética, os factores psicológicos e os traços de personalidade não foram alvo de investigação, por exemplo. A investigadora avança que pretende investigar “os factores que levam a esta diferença entre homens e mulheres, no que toca a comportamentos extremos de exercício e como afectam o desenvolvimento da ansiedade”.

Os investigadores admitem, ainda, que seria importante avaliar outras formas de desporto, além do esqui. O facto de os esquiadores estarem ao ar livre também poderá ter influência, por oposição a outras modalidades praticadas no interior. “Os estudos que se focam em desportos específicos podem encontrar resultados ligeiramente diferentes, mas isso dever-se-á principalmente a outros factores importantes que afectam a saúde mental e que não podem ser facilmente controlados numa análises destas”, concluem Martina Svensson e Thomas Deierborg.

Tendo em conta estes factores, o estudo dos investigadores suecos continua a ser particularmente relevante por focar a ansiedade, uma área da saúde mental muitas vezes negligenciada na área científica (grande parte dos estudos científicos analisa a depressão ou outras doenças do foro psiquiátrico). Grande parte das investigações científicas desta área inclui apenas homens, com uma amostra mais reduzida e um período de análise menor.