Quando menos se espera

Como não podia abrir o peito para tornar a pô-lo lá dentro, decidiu comê-lo. Engoliu o coração inteiro. Passou a viver com o coração no estômago.

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Jon Tyson/Unsplash

Não fez planos, não se esforçou particularmente para atingir um objectivo e, no entanto, os seus olhos habituados à visão constrita das palas libertaram-se desse freio equestre chamado alienação. Tudo à sua volta pediu mudança. De repente, viu com claridade e em extensão: do passado ao futuro, do centro à periferia, uma panorâmica que dir-se-ia impossível ao olho e cérebro humanos. Viu, através do espelho retrovisor da memória, o que tinha deixado para trás: um coração puro.

Pensou, e tornou a pensar, como poderia resgatá-lo das páginas de uma história passada. Sabia que esse coração, como um manuscrito honesto e inacabado, continuava a bater dentro da gaveta, pedindo um resgate. Teve receio. Tocar-lhe seria voltar a ter contacto com a beleza simples de uns olhos tímidos escondidos atrás das lentes dos óculos. Não tinha opção, a partir do momento em que as palas lhe caíram tinha de voltar a ver o tal manuscrito inacabado. O único material interessante que deixara em arquivo: um coração ilustrado com cães e cavalos e outros animais, nomeadamente auto-retratos e desenhos de familiares e amigos.

“Pessoa que escreve isto, faz um esforço para deixares de ser simbólica. Tem coragem.” Pois bem, o manuscrito arquivado tratava-se do seu coração e não de um livro. De uma pessoa e não de uma história. Quando menos se esperava, tudo mudou. E então, essa pessoa teve vontade de mudar ainda mais, mesmo que se tratasse de um tudo-nada. Abriu a gaveta onde se encontrava o coração e surpreendeu-se por ainda ter coragem para enfrentar um destino por cumprir. Olhou e observou o seu próprio órgão durante horas, dias, uma semana. Estava hipnotizada. Como batia veloz dentro de uma gaveta e fora do corpo. Um verdadeiro prodígio. Afinal, guardara o coração vivo. Que beleza, que júbilo.

Ao confrontar-se com o seu coração numa gaveta, latejando, existindo, a vida mudou. Quando esmorecia, logo visitava o coração dentro da gaveta e rejuvenescia. Mas tinha de tornar a pô-lo dentro do peito, agora que sabia que ainda guardava um coração a latejar, puro. Sabê-lo dava-lhe ânimo para continuar a viver até que tudo deixasse de mudar. Como não podia abrir o peito para tornar a pô-lo lá dentro, decidiu comê-lo. Engoliu o coração inteiro. Passou a viver com o coração no estômago. Sempre era melhor viver com o coração no sítio errado do que escondido na gaveta. Percebeu que assim não se podia chamar “ter uma vida”. Agora que tinha o coração dentro do corpo, mesmo que no estômago, tinha de aproveitar. Quando menos se espera, tudo muda. Quando menos se espera, o coração pode ficar mudo.