Atlético carrega na crise do Barcelona mas Koeman prossegue

João Félix esteve nos dois golos do triunfo da equipa de Simeone que deixa adversário no nono lugar. Presidente dos catalães garantiu continuidade de Ronald Koeman antes do jogo. A crise desportiva junta-se à maior crise económica da história do ex-clube de Lionel Messi

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Pelos pés do português João Félix começaram os dois lances de golo EPA/Juan Carlos Hidalgo

Goleado pelo Benfica no Estádio da Luz a meio da semana (3-0), na segunda jornada da Liga dos Campeões, o Barcelona continua a desiludir também no campeonato espanhol. Horas depois de o presidente do clube catalão ter assegurado a continuidade do treinador Ronald Koeman “independentemente do resultado” frente ao Atlético de Madrid, a equipa sofreu mais um revés, por 2-0, numa partida onde brilharam o português João Félix, Thomas Lemar e Luis Suárez.

Depois de três empates nas jornadas anteriores da Liga, o Barcelona sofreu a primeira derrota na prova, onde ocupa um impensável nono lugar, a cinco pontos do líder Real Madrid, que tem menos uma partida disputada. Já o Atlético de Madrid – que também não foi feliz frente a um adversário português esta temporada na Liga dos Campeões, ao empatar em casa com o FC Porto (0-0) –, igualou provisoriamente o seu grande rival da capital, após uma partida onde voltou a ter um estádio cheio de adeptos, algo que não ocorria desde Março de 2020.

Os dois golos da equipa de Diego Simeone foram construídos pela tripla João Félix, Lemar e Suárez. Pelos pés do português começaram ambos os lances. Primeiro solicitou o uruguaio que assistiu o francês para estrear o marcador, aos 23’; depois, após uma recuperação em zona defensiva, tocou para uma transição rápida de Lemar, que cruzou desta vez para Suárez marcar, aos 44’.

A debater-se com a pior crise económica da sua história, exposta com os efeitos da pandemia de covid-19, o Barcelona já atravessou ciclos incomparavelmente piores do que o actual a nível desportivo. O “grande” Barça devorador de títulos surgiu apenas no início dos anos de 1990, com uma equipa de sonho onde brilhavam, entre muitos outros, dois holandeses: Johan Cruyff, no banco, e Ronald Koeman, no relvado.

Até à última década do século passado, os catalães contavam no currículo apenas dez campeonato espanhóis e nenhuma Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões. Em comparação, o Real Madrid já somava 25 ligas espanholas e seis troféus da maior competição da UEFA.

De lá para cá, o Barcelona investiu em grande pela glória, iniciando uma escalada inexorável no futebol espanhol e mundial. Em 31 anos, arrecadou 16 campeonatos internos (dez no século XXI) e cinco Ligas dos Campeões (a primeira na última edição do formato Taça dos Campeões).

O sucesso teve um preço enorme e a embriaguez da grandeza levou a excessos, muitos erros e fugas em frente. Fintaram-se alarmes financeiros, com a mesma leveza com que Lionel Messi deambulava entre adversários nas quatro linhas. A crise do coronavírus e a abrupta queda de receitas impediu mais operações de cosmética aqui e em outras paragens. Os analistas dizem que nada voltará a ser como antes em Camp Nou.

No final da temporada 2020-21, o passivo total do clube estava nos estratosféricos 1.150 milhões de euros e a dívida líquida ascendia aos 682,7 milhões de euros, violando o limite de endividamento imposto pela Liga espanhola. Números que explicam a forma entusiasta e voraz com que o clube se aliou ao rival Real Madrid no projecto de uma Superliga europeia para perpetuar milionários falidos do futebol.

Uma das primeiras vítimas da política de austeridade foi precisamente Lionel Messi, um dos grandes emblemas da história do clube. Juntos festejaram nove campeonatos e quatro edições da Liga dos Campeões. Os seus salários e renovações milionárias poderão ter contribuído para a actual crise, mas, neste deve e haver, a estrela galáctica terá recompensado os cofres catalães através de títulos, merchandising e público nas bancadas.

As explicações para o “terramoto” anunciado em Camp Nou poderão residir muito mais em negócios como o de Antoine Griezmann, por quem o Barcelona pagou 120 milhões de euros no Verão de 2019. Hoje, depois de uma passagem apagada na Catalunha, o jogador voltou à condição de adversário, como jogador emprestado por uma época, mais outra de opção, no final da qual o Atlético terá obrigatoriamente de o contratar. Certamente por valores drasticamente mais discretos.

Apesar de ter apontado o seu primeiro golo neste regresso ao Atlético na última jornada da Liga dos Campeões, decisivo para o triunfo no terreno do AC Milan, Griezmann começou outra vez no banco (entrou aos 72'). A escolha de Simeone voltou a recair em Félix e o português, que falhou a duas últimas partidas por castigo, não deixou passar mais esta oportunidade, assinando uma excelente exibição à qual só faltou o golo. Não foi por falta de tentativas.