A escala urbana não é para miúdos

Tudo é gigante quando se é pequeno. Na confusão da cidade, ninguém nos vê nem ouve. Mas há sempre maneira de voltar a casa.

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Sydney Smith
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Capa de “Ser Pequeno na Cidade”, edição da Fábula (20|20 Editora)

A cidade é tão barulhenta e confusa (sobretudo) para quem é pequeno. Sorte a de quem tem quem o guie e aconselhe. “Os becos podem ser bons atalhos. Mas não vás por este. É demasiado escuro”; “Há muitos sítios onde te podes esconder. Debaixo desta amoreira, por exemplo. Ou no cimo da nogueira”; “Eu sei que gostas de ouvir música. Na casa azul, mais adiante, está sempre alguém a tocar piano, e há um coro que ensaia na igreja de tijolo vermelho. Podes empoleirar-te no parapeito da janela”, são algumas indicações que surgem na história à medida que a criança se aventura pelos caminhos da cidade gigante.

Estes e outros conselhos para que quem é pequeno se movimente na cidade sem medo, mas com segurança, são habilmente usados pelo autor para que o leitor se vá identificando e preocupando com a criança. Queremos que regresse a casa, que não enfrente mais perigos, mas afinal não é ela que está perdida. “Tens o prato cheio de comida e o teu cobertor quentinho à espera. Podes voltar quando quiseres.”

Um livro terno sobre o desamparo e a perda, mas também sobre a esperança, o conforto e a segurança que nos são dados por quem nos conhece e espera por nós.

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Sydney Smith

Sydney Smith é um ilustrador canadiano, já ganhou a Medalha Kate Greenaway e foi nomeado várias vezes pelo The New York Times para Melhor Livro Infantil Ilustrado do Ano.

A sua estreia como autor de texto e ilustração fez-se com este livro, que venceu, entre outros, o Prémio Ezra Jack Keats. Em Portugal, também se pode encontrar a sua assinatura no título Flores Mágicas, com texto do poeta Jon Arno Lawson e editado pela Livros Horizonte em 2015, e Eu Falo como Um Rio, com texto de Jordan Scott, editado pela Fábula em Junho deste ano.

Entramos em Ser Pequeno na Cidade como se fôssemos ao cinema (olhem bem para a capa e para as páginas iniciais). Depois, descobrimo-nos imersos em vinhetas de banda desenhada e a seguir em páginas sem texto, só com imagens. E que imagens!

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Não será a representação mais característica das cidades portuguesas — demasiada neve e muitos prédios de vidro —, mas dá-nos a escala, proporção e aflição do que é ser criança (ou pequeno animal doméstico…) e ter de percorrer sozinho os actuais espaços urbanos. “Há sempre muito movimento nas ruas. Até podes sentir a cabeça a andar à roda, com tantas coisas. Mas eu conheço-te. Vai correr tudo bem.”

E é notável o contraste entre a descrição do ruído (“os táxis buzinam. Ouvem-se sirenes de todos os lados. Nas obras, martelam, furam, gritam e escavam”) e o silêncio interior que partilhamos com a criança ao longo de todo o livro.

Para o jornal britânico The Guardian, este “é um conto doce e caloroso, que apetece reler de imediato”. Já The Times, também do Reino Unido, não tem dúvidas: “Com este excepcional livro ilustrado, Sydney Smith irá entrar no cânone.” Nos Estados Unidos, a Publishers Weekly também se rendeu ao talento de Sydney Smith: “Retrato subtil da saudade pela ausência de um ente querido. Smith conduz o leitor numa tranquila, mas poderosa viagem emocional.”

Não chegamos a saber se é um miúdo ou uma miúda que anda pela cidade. Mas isso também não importa.

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