Os caminhos cruzados no futuro do PSD

“Só entra no comboio quem está no apeadeiro.” Que é como quem diz: só quem está na liderança de um partido pode ter a esperança de chegar a primeiro-ministro.

O PSD é um dos partidos portugueses mais vivos do ponto de vista da democracia interna, mesmo quando isso significa a morte de algumas facções que surgem a pretexto de uma qualquer disputa pontual — como a que está prestes a acontecer, no rescaldo das eleições autárquicas.

Ainda não se sabe se Rui Rio avança com uma recandidatura e essa incógnita está a paralisar quase tudo. O último compasso de espera foi decretado neste sábado por Luís Montenegro e vale a pena tentar explicá-lo. Terá Montenegro desistido de um dia ser líder do PSD? Não creio. Mas o antigo adversário de Rio percebeu duas coisas, e delas dá sinal na entrevista à TSF e ao JN.

Primeiro, percebeu que a campanha interna vai ser negra e violenta e quis deixar claro que, por enquanto, não pretende envolver-se nela. O facto de se socorrer de expressões como “partido tribal”, “ódio interno” ou “tropas políticas” para se referir ao combate que se avizinha indicia que sabe o que aí vem — e não é bom. 

Em segundo lugar, parece ter percebido que a hora de o PSD ganhar as eleições legislativas pode ainda tardar. Seja porque entende que António Costa vai resistir até 2023, voltando a concorrer, seja porque não acredita que o PSD — com Rui Rio ou com Paulo Rangel — tenha tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais. 

Luís Montenegro corre um risco e para explicar que risco é esse vou citar a jornalista São José Almeida que, no nosso podcast semanal Poder Público, costuma usar uma frase desarmante que lhe foi dita por um dirigente do PS, para explicar estes casos: “Só entra no comboio quem está no apeadeiro.” Que é como quem diz: só quem está na liderança de um partido pode ter a esperança de chegar a primeiro-ministro. 

Como é que Montenegro responde a esse risco? Com um frase enigmática. “Não afasto nada.” Saia Rui Rio do caminho e logo se vê.