João Ferreira não aceitará pelouros na Câmara de Lisboa

Não diz “nunca, jamais” quanto a ser futuro líder do PCP. “A questão não se coloca”, garante.

O primeiro vereador eleito pela CDU em Lisboa não aceitará pelouros na câmara da capital dirigida por Carlos Moedas. “Somos em Lisboa uma força de oposição e, mais do que oposição, somos em Lisboa uma força de alternativa”, diz João Ferreira em entrevista ao programa Interesse Público, que foi para o ar esta quarta-feira.

João Ferreira afirma que “a força” com que a CDU saiu das eleições “é a força que vai ser utilizada num sentido construtivo”: “Não vamos ter uma atitude passiva, contemplativa, de apreciação de propostas que outros entendam submeter. Vamos ser nós mesmos construtores de propostas e de soluções para os problemas que Lisboa enfrenta.”

Rejeitando a política de “terra queimada” – “Não é oposição por oposição, é uma oposição sempre crítica e construtiva” –, João Ferreira quer abordar logo nas primeiras reuniões do executivo camarário as questões da mobilidade e dos transportes públicos, da habitação, e “a necessidade de libertar Lisboa deste pesadíssimo fardo em que se transformou o aeroporto”.

E lembra que na campanha Carlos Moedas também se manifestou contra a Portela – “Assumiu a defesa da desactivação progressiva, mas definitiva, do aeroporto da Portela”. [E isso] é uma questão que justificará o pronunciamento da Câmara de Lisboa, sabendo nós que não é algo que dependa da câmara”, observa João Ferreira.

Quanto ao Orçamento do Estado, João Ferreira afirma que, como sempre afirmaram os comunistas, o resultado autárquico, com o PCP a voltar a perder câmaras municipais, não afectará o processo de análise do Orçamento. “A questão já estava respondida antes das eleições e depois das eleições a resposta não se altera.”

Mas rejeita que a viabilização do PCP seja um facto adquirido, ainda que esteja a ser repetido insistentemente por todos os comentadores políticos. À pergunta sobre “toda a gente dar por adquirido a viabilização pelo PCP”, João Ferreira responde assim: “Quando diz ‘toda a gente dá como garantido’, toda a gente não é com certeza. Eventualmente, toda a gente no panorama do comentário televisivo nacional. Mas isso diz mais do comentário televisivo e da sua reduzida pluralidade do que propriamente do que são as posições do PCP.”

Portanto, pode existir voto contra, a favor ou abstenção. “Vai depender do conteúdo da proposta e da abertura que existir para incluir respostas à situação nacional que, no passado, as propostas iniciais não continham. É verdade que foi possível por uma intervenção de que o PCP nunca abdicou e também não vai abdicar desta vez introduzir melhorias. Isso pode levar a que o voto seja a favor, abstenção ou contra.”

Não é que João Ferreira esteja muito optimista, tendo em conta posições recentes do PS. “O Partido Socialista muitas vezes diz que quer combater essa precariedade [laboral], mas fica-se pelas palavras. Quando as questões vão ao concreto, na Assembleia da República há não muito tempo convergiu com o PSD, com o CDS e com os seus sucedâneos da Iniciativa Liberal e do Chega, para inviabilizar as propostas que o PCP fez.” Ferreira junta a recusa em reduzir o preço da energia e a recusa em aumentar o salário mínimo. “Se me pergunta se é um mau sinal, é um mau sinal, de facto. Não é um bom sinal.”

E o homem que já anda em rodagem há tanto tempo – candidaturas ao Parlamento Europeu, às presidenciais e à Câmara de Lisboa – gostaria de ser secretário-geral do PCP? Resposta: “Gosto muito de poder intervir no PCP e cumpri sempre as tarefas que tive em mãos com, para além do sentido de responsabilidade a que essas tarefas obrigam, alegria e satisfação, que também é importante. Quanto ao secretário-geral, tenho muita alegria e muita satisfação, quando olho para o actual secretário-geral do PCP e para a força, determinação e combatividade que ele evidencia e transparece para o colectivo partidário. Houve um congresso há menos de um ano, do qual resultou a eleição do secretário-geral e essa questão nem se coloca. Nem se virá a colocar tão cedo.”

Mas João Ferreira diz “nunca, jamais, em tempo algum” assumir o cargo de secretário-geral? “A questão não se coloca, ponto final.”