Moradores contestam (de novo) parque de estacionamento no Largo de Cadouços

Câmara do Porto quer fazer um parque de 100 lugares e garante que jardim não vai desaparecer. Mas quem mora neste largo, na Foz, não quer a empreitada. Cultura do Norte exige sondagem arqueológica prévia para dar luz verde

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Nelson Garrido
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Quando numa reunião na Câmara do Porto ouviu dizer que haveria um “muro de contenção” a cerca de um metro e meio da porta de sua casa, Fátima Santos sentiu calafrios. “Agora tenho um jardim e passaria a viver num condomínio fechado”, comenta a moradora do Largo do Capitão Pinheiro Torres de Meireles (conhecido como Largo de Cadouços), na Foz, a propósito da construção de um parque de estacionamento naquela geografia. Fátima Santos é uma das criadoras de uma petição pública que procura travar esta construção que, dizem, é desnecessária e destruirá o jardim existente. A autarquia garante que o jardim é para manter – e até requalificar – e defende que a zona está “descaracterizada pela pressão de estacionamento” e necessita, por isso, de um parque.

A intenção é antiga. Em 2017, Rui Moreira apresentou um projecto de requalificação urbana daquela zona, anunciando que haveria um concurso público para a construção de um parque subterrâneo com 240 lugares. Mas mais de quatro anos depois o concurso “não foi ainda lançado”, informa a autarquia. O que explica tal atraso? “A necessidade de rever o projecto no que respeita à tipologia de parque exclusivo para avençados (moradores e comerciantes) sem rotação.” Agora, a ideia é fazer um parque com 100 lugares, adianta a mesma fonte, que diz não ser ainda possível dizer a quantos pisos abaixo do solo isso corresponde.

O anúncio inicial, em 2017, motivou a acção imediata de alguns moradores da área, que integra parcialmente a Zona de Protecção do Conjunto da Foz Velha, conjunto de interesse público. Fizeram uma petição, entregaram um abaixo-assinado na Assembleia Municipal e chegaram mesmo a ter uma reunião na autarquia com a vereadora Cristina Pimentel, conta Fátima Santos. Os esclarecimentos foram “poucos”. Mas o assunto esmoreceu. “Em 2019, na junta de freguesia, disseram-me que estava em standby por falta de interessados [para fazer a construção].” Juntou-se a isto uma pandemia e a delonga aumentou.

Até Setembro deste ano. “Ouvimos de novo o Rui Moreira dizer que queria avançar com o parque, embora já não fosse a mesma coisa”, conta Fátima Santos. “Disse que o jardim era esconso, que ninguém o usava e que desafiava qualquer deputado a ir ver o jardim para o confirmar, porque ele passava lá três vezes por semana. Eu moro no largo e nunca o vi.”

Entre os muitos documentos que um grupo de moradores foi reunindo estão fotografias tiradas todos os dias da semana, em diversos horários, que procuram mostrar exactamente o contrário. “Há sempre gente a usar o jardim. Miúdos a jogar à bola, a usar trotinetas, bebés a brincar, avós com netos. É um jardim que faz crescer gerações”, defende a moradora, que nasceu há 58 anos na casa onde mora hoje, exactamente no largo de Cadouços.

A possibilidade de destruir o “jardim romântico do século XVIII” é uma das preocupações. Apesar de “abandonado e negligenciado”, o espaço verde é fulcral, aponta Fátima, em representação dos moradores. A Câmara do Porto é categórica: “A construção do parque não implica o desaparecimento do jardim.” O projecto, acrescenta, prevê “recuperação” do espaço, “respeitando integralmente as suas características, quer ao nível do detalhe construtivo quer ao nível de todo o mobiliário urbano definido (bancos, papelarias, quiosques)”.

Parecer “favorável condicionado”

Fátima Santos teme ainda pela sua casa e outras, semelhantes, ali existentes. Por serem antigas, acredita, não têm grande estabilidade estrutural e não sobreviveriam a uma obra deste género. E o argumento da falta de estacionamento não vinga: “Sou uma moradora sem garagem e raramente tenho dificuldade em estacionar. Quando não tenho lugar tão perto não demoro mais do que três minutos a chegar a casa desde o lugar onde parei.”

Em Janeiro de 2019, o gabinete de obras públicas da Câmara do Porto pediu à Direcção Regional de Cultura do Norte (DRNC) um “parecer sobre a viabilidade de intervenção no espaço público no Largo do Capitão Pinheiro Torres de Meireles” para a “construção de um parque de estacionamento subterrâneo para 200 viaturas”.

O parecer, emitido em Janeiro de 2019, foi “favorável condicionado”, informa a  DRCN. “Uma vez que existem várias referências históricas que indiciam uma provável ocupação anterior, diacrónica e que poderá recuar a períodos antigos, nomeadamente à pré-história, considerou-se que a sua execução teria de ser antecedida da realização de sondagens arqueológicas de avaliação.” Até à data, “ainda não foi recepcionado este pedido”.