Como enfrentar a crise do emprego e as alterações climáticas? Investir em energia limpa

O investimento no fabrico de equipamento solar fotovoltaico cria 1,5 vezes mais empregos do que o mesmo montante gasto na produção de combustíveis fósseis, mostra um grupo de reflexão sediado nos Estados Unidos da América. Mas os empregos verdes não chegarão a todos.

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alvarez/Getty Images

Investir em energia limpa pode ajudar as economias a recuperar do abrandamento causado pela pandemia de covid-19, uma vez que criará mais empregos do que o apoio aos combustíveis fósseis. 

“Os investimentos verdes podem ser uma parte importante dos pacotes de recuperação, podendo levar à criação de empregos e a resultados económicos positivos, ao mesmo tempo que ajudam a enfrentar as alterações climáticas”, mostra um relatório do World Resources Institute (WRI), um grupo de reflexão sediado nos Estados Unidos da América.

No entanto, numa tentativa de estimular o crescimento depois de milhões de pessoas em todo o mundo terem perdido trabalho durante os confinamentos, os governos estão a gastar mais em indústrias poluentes que não respondem às preocupações com as alterações climáticas nem oferecem estabilidade aos trabalhadores, adverte o WRI.

Partindo de uma análise a mais de uma dúzia de estudos realizados na última década, o relatório do WRI calculou que um milhão de dólares em investimentos verdes criaria mais empregos a curto prazo do que o mesmo montante investido em estradas e combustíveis fósseis. Mas a qualidade dos empregos criados nos sectores mais ecológicos deve ser protegida, assegurando salários e condições de trabalho justos, acrescenta o relatório, apelando aos governos para se envolverem com os sindicatos e empregadores nesta questão.

À medida que o mundo enfrenta aumentos da temperatura e condições meteorológicas mais extremas, bem como um declínio do emprego, a transição climática oferece a oportunidade de resolver ambos os problemas de uma só vez, garantem os investigadores.

“Investir no clima não é um custo mas uma oportunidade económica”, defende Joel Jaeger, autor principal do relatório do WRI, em conversa com a Fundação Thomson Reuters.

A pandemia eliminou cerca de 255 milhões de empregos a tempo inteiro no ano passado e os trabalhadores perderam globalmente um rendimento total de cerca de 3,7 biliões de dólares, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho. Mas os pacotes de estímulo para reanimar os sectores atingidos pela pandemia contam uma história de indiferença climática, observou o relatório do WRI.

As indústrias dependentes dos combustíveis fósseis angariaram 334 mil milhões de dólares em investimentos governamentais, em comparação com 276 mil milhões de dólares para energias renováveis e transportes públicos, de acordo com dados do Energy Policy Tracker, citado no relatório. Estima-se que a Indonésia poderia acrescentar 15,3 milhões de empregos até 2045 e os Estados Unidos poderiam acrescentar 4,5 milhões de empregos por ano durante dez anos se esses países investissem em energia limpa e adoptassem estratégias de crescimento com baixo nível de carbono.

As indústrias amigas do clima já ofereceram trabalho e melhores salários durante a pandemia, acrescenta o relatório. Em termos mais gerais, o investimento no fabrico de equipamento solar fotovoltaico cria 1,5 vezes mais empregos do que o mesmo montante gasto na produção de combustíveis fósseis. Para a energia eólica o número é 1,2 vezes, mostraram os estudos analisados pelo WRI.

O sector das energias renováveis criou um número crescente de empregos nos últimos anos, 11,5 milhões em 2019 contra 11 milhões no ano anterior, de acordo com a Agência Internacional de Energias Renováveis, que promove as energias e tecnologias limpas.

A instalação de painéis solares ou a modernização de um edifício para o tornar mais eficiente em termos energéticos são actividades de mão-de-obra intensiva com potencial para criar mais empregos, diz o investigador Jaeger.

As comunidades e os trabalhadores dependentes de combustíveis fósseis deveriam ser requalificados e introduzidos a formas alternativas de ganhar a vida à medida que o mundo se vira para a energia limpa, assegurando ao mesmo tempo a qualidade dos empregos criados nas energias renováveis, insiste o relatório. “Temos de evitar que a queda dos custos das tecnologias verdes seja conseguida através da redução dos salários, da segurança do emprego ou das condições de trabalho”, disse o relatório.

Os defensores dizem que a transição do carvão, gás e petróleo para a energia verde irá criar milhões de novos empregos, compensando os perdidos nos sectores mais poluentes. Mas a transição enfrenta obstáculos políticos, bem como a oposição de pessoas cuja subsistência depende da extracção de combustíveis fósseis.

Os investigadores que estudam as comunidades dependentes do carvão a nível mundial alertaram que a mudança não seria nem rápida nem fácil. “Cada vez mais estudos mostram que haverá mais empregos em energia renovável e limpa — mas não irão para as mesmas pessoas que perderão empregos nos combustíveis fósseis”, lembra Sandeep Pai, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais com sede em Washington.

Os novos empregos não serão necessariamente criados nas mesmas localizações geográficas e alguns deles, como o fabrico de painéis solares, poderão não proporcionar um trabalho permanente e altamente qualificado. “À medida que os países descarbonizam, haverá vencedores — mais empregos para as pessoas, ar e água mais saudáveis — mas (os) perdedores serão imensos”, disse Pai, apelando a um início imediato dos esforços para diversificar as economias das regiões ricas em carvão.

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Ana Marques Maia