Falar muito é um defeito?

A minha birra de hoje é a favor das crianças que falam pelos cotovelos. Em casa, no carro, na escola, entre amigos, com os avós.

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Ana, 

Quero falar-te de miúdos que falam pelos cotovelos. Ou seja, de crianças que são como eu era, com imensa vontade de transformar o que vivem e vêm em histórias cheias de detalhes, desejosas de dar notícias e de partilhar as suas experiências com os outros, mortos por fazer perguntas e obter respostas. E, claro, com opinião sobre tudo.

Sempre tive vergonha da minha tagarelice, considerei-a um defeito que era preciso superar — numa família de gente fleumática e reservada, falar muito e meter conversa a torto e a direito com “estranhos” não era uma qualidade, e as crianças faladoras também não são muito populares nas salas de aulas. Mas quando me entusiasmava por um tema, ontem, como hoje, esquecia os bons propósitos e lançava-me de cabeça, para depois me recriminar por ter — mais uma vez — falado demais. E a culpa fica ali a remoer, mais as juras de que para a próxima me vou controlar melhor.

Mas depois nasceste tu. E falavas pelos cotovelos e metias conversa com “estranhos”, e tinhas sempre alguma coisa para dizer e contar, tecendo redes entre as pessoas todas, levando-as a falar mais, a darem-se mais, e a encher-nos a vida de alegria. E, Ana, provando que quem fala muito, também é capaz de escutar. E eu comecei a pensar que, afinal, falar muito não era uma coisa má, nem um defeito, e isso fez-me muito bem.

Estava a pensar nestas coisas, quando decidi que a minha birra de hoje seria a favor das crianças que falam pelos cotovelos. Em casa, no carro, na escola, entre amigos, com os avós. E se, obviamente, as temos de ajudar a saber esperar, a não atropelarem os outros, mais calados e mais tímidos, vamos dizer-lhes que estamos gratos pela sua alegria. Obrigada pela tua.


Querida Mãe,

Que boa birra! Apoio-a! Para a complementar quero falar-lhe dos miúdos que falam pelos cotovelos em casa, mas que se calam logo que aparecem pessoas novas. É sempre uma frustração para os pais e avós que querem mostrar as coisas queridas e divertidas que a criança costuma dizer, que querem envolver os amigos/tios/primos nas histórias que ela costuma contar, confrontar-se com o seu mutismo em público. Ver o seu tagarela doméstico, limitar-se a um olhar de lado, que muitos interpretam como desdém, mas que é pura e simplesmente vergonha. Crianças que não dizem uma palavra quando as levamos ao veterinário com o cão, mas que ficam três dias a contar às irmãs e ao pai tudo o que o doutor fez, com direito a gestos e tudo — história baseada em factos reais! Aliás a frustração começa logo em bebés quando depois de mil “mostra lá como já sabes dizer adeus”, eles começam a acenar quando já estão no carro!

Mas, mãe, convido-a a reparar nos pequeníssimos detalhes, no cantinho da boca que sobe quando conversam com ela. No olhar atento e na língua de fora de esforço. Porque há esforço. É um esforço invisível. Ao contrário do que parece, elas estão a tentar ultrapassar a barreira da vergonha. Cada dia mais. Por isso é que lhes é tão difícil ouvir coisas como “Então, este miúdo não fala!”, “É um desconfiado! Não gosta de mim”, “Não é lá muito bem-educada”. Mas sabe o que é que ajuda? Não desistir deles, mas devagarinho. Sem grandes toques, ou invasões. Incluindo-os na conversa, mas sem esperar grandes respostas. Eu sei, são mais difíceis de conquistar do que os faladores, mas valem muito a pena!

Beijinhos!

Ana


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.