Narciso, Eco e as redes sociais

Com o telemóvel na mão, somos todos Narciso e somos todos Eco. Presos à própria imagem, a reproduzir o que os outros dizem e fazem. É uma conta que não fecha. Envaidecemo-nos e autocontemplamo-nos como nunca antes. Imitamos e repetimos como nunca antes.

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Aaron Burden/Unsplash

Segundo a mitologia, Eco era uma ninfa que fazia muita companhia a Hera, mulher de Zeus. Zeus traía a mulher a torto e a direito e pediu a Eco que a distraísse, para ele poder estar à vontade nas suas aventuras amorosas. Eco assim fez e tagarelava sem fim, para que Hera nunca conseguisse apanhar o marido em flagrante. Mas, Hera, sempre perspicaz, percebeu o estratagema. E deu uso aos seus poderes de deusa do Olimpo para castigar a bela ninfa. A voz que Eco tanto usara para tagarelar passaria a ser o seu castigo. A partir desse dia, Eco estaria condenada a comunicar sem ter o domínio do que era dito: a falar apenas para repetir o que os outros diziam. Eco duplicaria apenas as palavras dos fins das frases e devolveria os termos que ouvisse.

Desde então, Eco refugiou-se nos bosques e podemos ouvi-la nos vales, nos poços, nas grutas, nas casas vazias e, sobretudo, nas redes sociais.

Eco encontrou nas redes sociais um ecossistema auspicioso. Um mundo onde, por se falar tanto, se perde a voz. Onde se repetem vozes até ao infinito. Vozes, looks, planos. Onde se comunica sem se dominar o que se diz. Onde falta, tantas vezes, critério. Onde ecoam as frases que Fernando Pessoa e Oscar Wilde nunca disseram, os vídeos com desinformação, os apelos racistas, os clichés, os devaneios banais. E, também, os pensamentos pertinentes, as dicas imprescindíveis, as histórias comoventes, os movimentos que unem e fazem diferença. Eco não tem critério, ecoa porque é a sua função. O mau, o bom, o banal, o desnecessário, o fundamental. Teremos sido todos castigados por Hera? Sem conseguir sair, viciados no repost, na opinião veloz acerca de todo e qualquer assunto, com frequência perdidos da nossa própria voz, no meio de tantas.

Como fazer panquecas, a opinião de um antigo professor de Educação Física sobre os impostos, um gato da nossa tia-avó, um livro que temos de ler, um meme, um sutiã com desconto, um documentário imperdível, um convite para uma festa. Esta constatação do eco das redes é em si mesma um eco. Já tudo se ouviu, tudo se disse e diz, a cada minuto, uma repetição constante e frenética.

Mas a história de Eco não acaba assim: certa vez, angustiada e a deambular pelos bosques, Eco vê um jovem lindo e apaixona-se perdidamente por ele. Impedia-lhe o castigo de ter a iniciativa de lhe gritar o seu amor. O nome do rapaz era Narciso e, para mal dos pecados da pobre ninfa, o formoso jovem nada mais via à frente do que o próprio reflexo. Narciso assustou-se com a figura de Eco, já abatida pelo castigo, rejeitou-a, e ela foi obrigada a repetir as palavras da sua rejeição. Sofreu tanto que definhou a ponto de perder o corpo. Tornou-se apenas voz.

Narciso ama o próprio reflexo. Não sai da beira do lago onde se vê reflectido e não tem olhos para mais nada nem ninguém. Acaba por matar-se pela natureza impossível do seu amor. E transforma-se numa flor, que até hoje tem o seu nome.

Com o telemóvel na mão, somos todos Narciso e somos todos Eco. Presos à própria imagem, a reproduzir o que os outros dizem e fazem. É uma conta que não fecha. Envaidecemo-nos e autocontemplamo-nos como nunca antes. Imitamos e repetimos como nunca antes.

Imagens e ecos, ecos e imagens, emitimos sons sem acertar a frequência, disparamos flechas sem pousar os arcos. Convencidos de que o enfado da realidade é a derradeira maldição, não baixamos a guarda.

E, se, tantas vezes, nos preenche e nos anima a repercussão das coisas belas ou a auto-admiração, tantas outras nos assola a angústia de não percebermos se ainda temos voz ou se ainda sabemos olhar em volta. Se é escolha ou sentença, bênção ou castigo.

No que de belo ou de trágico haja no mundo das redes sociais, talvez por lá não passemos de sons repetidos num vale, de flores a boiar na água.