Cidade do México, uma cidade de outro mundo

O leitor António Valadas recorda a sua passagem pela gigantesca metrópole.

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A minha primeira visita ao México decorreu em Setembro e Outubro de 1981. Fui participar em duas reuniões internacionais e num congresso mundial, tendo depois ficado mais algumas semanas para conhecer melhor algumas partes do México. A descrição que segue é retirada dos meus apontamentos na altura.

Regressei à Cidade do México e fiquei num hotel que parecia a prisão de Alcatraz. Soube depois que tinha, de facto, sido uma prisão que tinha sido adaptada a hotel. Era igual aos filmes: um amplo espaço central com as antigas celas transformadas em quartos em todos os andares e um corredor exterior que dava acesso a escadas de ferro. Era uma ideia original a que achei bastante piada, porque só o que é diferente espicaça a nossa imaginação.

A Cidade do México é simplesmente gigantesca. Avenidas largas, um trânsito como nunca tinha visto. É uma cidade bonita com muitos vestígios da sua herança espanhola e as pessoas aqui eram bonitas e alegres. Outro mundo.

Tem o que me disseram ser a mais longa avenida do mundo, a Insurgentes Sur, com cerca de 70 quilómetros. As avenidas principais e as praças centrais são todas bonitas. Depois, à medida que nos vamos afastando do centro, o aspecto da cidade vai mudando.

É preciso explicar que a cidade é na realidade um aglomerado de cidades que foram crescendo e se foram ligando até criarem esta metrópole gigantesca. A cidade está em grande parte assente sobre um antigo lago, pelo que as estátuas, prédios e monumentos em muitos locais estão a afundar-se.

Adorei circular por aquelas avenidas e praças imensas e espreitar tudo o que me pareceu com interesse. O Museu de Antropologia é uma visita obrigatória. Foi talvez o museu que vi até hoje que mais me impressionou.

Claro que com o meu espírito de explorador andei a meter o nariz em tudo, igrejas, monumentos, um mercado descomunal. Tudo me pareceu atraente e as pessoas mostraram-se sempre bastante acolhedoras. Só me irritava quando percebia que quando se referiam a mim me chamavam “gringo”.

A família de uma estudante mexicana que já estivera em Portugal através da minha organização, Intercultura, excedeu-se em amabilidades, procurando levar-me e mostrar-me tudo o que podiam e convidando-me com frequência para jantar lá em casa. Eu era já quase visita diária da casa e isso permitiu-me conhecer melhor a forma de viver das classes mais abastadas da cidade.

A cidade é tão grande que está dividida em bairros, cada um deles muito maior que Lisboa. Certo dia, a família da Gena disse-me que estavam convidados para ir a uma festa em casa de amigos e que me iam levar. Assisti então ao que parecia uma reunião do estado-maior de um exército antes de planear o ataque ao inimigo.

As pessoas conhecem o seu “bairro”, a designação era outra, mas já não me lembro qual. Como os amigos moravam noutro “bairro”, a primeira parte do planeamento era como ir do local onde estávamos a outro perfeitamente desconhecido. Mapas enormes na mesa, muita discussão entre os membros da família. Eu olhava para tudo aquilo estarrecido. Uma vez tomada a decisão de como chegar, pelas grandes avenidas, à outra zona, passava-se ao estudo cuidadoso desta. O planeamento foi tão demorado que estava a ver que ia perder a festa.

As grandes avenidas e circulares que ligam as várias partes da cidade tinham todas uns relevos altíssimos ao longo de todo o seu percurso, o que obrigava as pessoas a guiarem devagar e com imenso cuidado. Uma distracção e saíamos todos pelo tejadilho do carro.

Claro que chegámos a casa dos amigos muito mais tarde do que era esperado, mas ninguém pareceu incomodar-se muito com isso. A seguir aos cumprimentos, os primeiros minutos foram passados a discutir como é que lá tinham conseguido chegar e que alternativas podiam ter sido aproveitadas.

O regresso já foi mais fácil, mas nunca irei esquecer o planeamento inicial. Parecia estar num filme de guerra. Só que, aqui, o “inimigo” eram os amigos.

Uma cidade com tanta gente tinha que ter meios de transporte à sua medida. Já tinha percebido que os autocarros andavam “à cunha”, mas evito-os sempre que posso. Para as grandes distâncias havia o metro e eu decidi arriscar.

Certo dia em que ia para mais longe decidi ir no metro. Os transportes aqui são ridiculamente baratos, até custa a acreditar. Mas não vão apinhados. Não conheço um termo que possa descrever aquilo. Assim que entrei fui logo esmagado contra uma parede pela gente que entrou atrás de mim. Percebi que nunca conseguiria sair onde pretendia a não ser que me posicionasse bem e com antecedência. Foi o que fiz. Mesmo assim foi à custa de cotoveladas e empurrões que consegui sair inteiro e, o que mais receava, sem ter sido assaltado.

A família da Gena levou-me a visitar Teotihuacan. Esta cidade foi a maior da América pré-colombiana. A sua disposição deve fazer inveja a qualquer arquitecto urbanista moderno, de tão avançada. A Avenida dos Mortos com a Pirâmide da Lua ao fundo. A Pirâmide do Sol, ainda maior, tudo aquilo impõe respeito. Claro que subi ao topo das pirâmides, algo que agora, ao recordar essa viagem, já não seria capaz de fazer.

Depois de uma paella magnífica visitámos ainda o convento de San Agustin, em Acolman, construído no século XVI. Foi dia de deitar cedo, depois de tanto subir e descer.

Já tendo visitado o Museu de Antropologia, a catedral, e alguns dos principais monumentos dediquei uma tarde ao Parque Chapultepec. Era fim-de-semana e parecia que todas as famílias mexicanas tinham decidido ir para ali passear, petiscar, encontrar amigos. É enorme, com um grande lago, museus e imensas barraquinhas de artesanato e comidas. Muito agradável. Tive ainda que aguardar numa fila interminável para visitar o castelo, mas valeu a pena.

Nessa última noite fui jantar na Praça Garibaldi, com restaurantes populares muito procurados pelos mexicanos e despedir-me da cidade. No dia seguinte seguia para a península de Iucatão.

António Valadas

Autor do livro Facing Challenges- Histórias da minha vida que me pediram para contar