Os avós são um mau exemplo para os netos?

Terá sido a mãe uma má influência para o meu querido filho ou a criança quando encontrou em si uma alma gémea, revelou a sua verdadeira natureza? Só o futuro o dirá.

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@designer.sandraf

Ana,

Prometi a mim mesma não voltar ao ritmo frenético do tempo pré-covid, mas já está tudo igual...

Adeus ao meu sonho de clausura.

Dedilho esta “carta” no telemóvel, encostada a um sinal de trânsito em pleno Chiado, em Lisboa, entre duas reuniões.

Mas, apesar da correria, não posso deixar de fazer uma birra: O que é que te deu para, no final do nosso último telefonema, me teres dito que eu era uma má influência para o teu filho de três anos!? Explica-te.


Mãe,

Hahahaha, não estou muito melhor em termos de ritmo. Escrevo no carro (encostado, convém esclarecer), entre uma aula e outra, e já fiz “overbooking”, sobrepondo umas 300 coisas porque a juntar à minha desorganização crónica. Aparentemente agora também sou esquecida (odeio calendários no telefone, mas também perco os em papel!)...

Em relação à sua pergunta acho que dava um óptimo título de um jornal sensacionalista, do género: “Ana Stilwell acusa Isabel Stilwell de ser uma má influência no seu filho mais novo.” Vendia como castanhas quentes! Mas não se enerve, eu explico-lhe (à mãe e a quem nos lê).

A M. foi para uma escola nova e quando eu e o mini E. a vamos deixar, paramos o carro numa bomba de gasolina e vamos o resto do caminho a pé. Os benefícios e o prazer que essa caminhada nos tem dado ficam para outra carta, mas uma das coisas que me tem dado gozo é que quando atravessamos a estrada na passadeira vou de mão dada com os dois e, por isso, peço ao mini E. para agradecer com a mão aos condutores que param. Ele fica (ou devo antes dizer ficava?!) a coisa mais querida de mão levantada a dizer “obrigado” e provocava sorrisos em toda a gente que, acredito, ia dali mais bem-disposta para o emprego!

Ora, há uns dias qual não é o meu espanto quando ao chegarmos à dita passadeira o meu filho começa aos gritos de mão aberta e espetada que nem polícia sinaleiro a dizer “Pára! Pára!”, num road-rage muito pouco característico. Soa-lhe familiar? A mim soou quando me lembrei que tinha sido a mãe a fazer este trajecto com eles duas vezes na mesma semana (para cá e para lá, são quatro passagens naquele lugar), e que se tinha fartado de refilar com o trânsito naquela estrada. Lembro-me de, especificamente, ter barafustado: “Ana, ninguém pára nas passadeiras, tenho de mandar parar os carros que nem uma doida.” As peças caíram todas no sítio, e percebi tudo!

Agora qual é a moral da história? Terá sido a mãe uma má influência para o meu querido filho ou a criança quando encontrou em si uma alma gémea, revelou a sua verdadeira natureza? Só o futuro o dirá.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.